Virada Cultural 2011: São Paulo

Palco Júlio Prestes (foto: Ciro Hiruma)

Palco Júlio Prestes (foto: Ciro Hiruma)

SHOWS

16 e 17 de abril

A Virada Cultural mostrou uma tendência que se acentuou nos últimos anos: a busca de atrações ecléticas. Não apenas na área musical, mas também nos eventos que envolveram as artes visuais, teatro, cinema, dança, literatura e modalidades recentes como a cultura dos animes e cosplay. E o público correspondeu, nada menos que quatro milhões de visitantes usufruíram as quase mil atrações deste ano.

São Paulo e a Ovelha Negra

Rita Lee abriu a noite no palco Júlio Prestes e fez um ótimo show. Os momentos inesquecíveis de sua carreira estavam lá: “Agora Só Falta Você”, “Lança Perfume”, “Doce Vampiro”, enfim, uma ampla retrospectiva de sua carreira.

Rita Lee (foto: Ciro Hiruma)

Rita Lee (foto: Ciro Hiruma)

Mas o espetáculo teve extras que renderam reações variadas da plateia. O Michael Jackson cover que apareceu de surpresa e ganhou o público. E o discurso de Rita durante “Ovelha Negra”, recebeu aplausos calorosos para a cantora e vaias aos políticos: “Entra governador, sai governador e São Paulo continua igual Por que eles não tiram a bunda da cadeira e vão trabalhar?”. 

A seguir o show de Edgar Winter começou com problemas de som (que, aliás, se repetiram em vários palcos da Virada). Foi preciso esperar mais de um minuto até que fosse possível ouvi-lo. Não poderia faltar ao repertório o clássico “Frankenstein”. Trechos de “Sunshine of Your Love” (Cream), “Kashmir” (Led Zeppelin), e o solo do ótimo guitarrista Doug Rappaport com uma passagem de “Eruption” (Van Halen) agradaram em cheio o público.

No final da apresentação, a produção simplesmente cortou o som do microfone de Winter para encerrar o show. Falta de consideração e respeito que ganha relevância por se tratar de um músico do exterior. A organização do evento fez questão de salientar que este ano a vinda de atrações internacionais bateu o recorde. A necessidade de um tratamento no mínimo educado para estes artistas é fundamental. A plateia se manifestou de forma veemente contra este fato.

Durante a madrugada, houve um princípio de tumulto, especialmente durante a apresentação da banda Misfits. Na tarde do dia 17, Frejat realizou uma ótima apresentação, a Blitz manteve o bom humor e o pique com seus sucessos “A Dois Passos do Paraíso”, “Você Não Soube Me Amar”, “Betty Frígida” e ainda teve tempo para “Óculos” do Paralamas do Sucesso. O RPM colocou no setlist as músicas que público queria ouvir, como “Louras Geladas” e “Olhar 43”.

Fusões, Inovações e Ousadia

Brian Auger (foto: Ciro Hiruma)

Brian Auger (foto: Ciro Hiruma)

A Libero Badaró foi o palco em que o rock progressivo, o jazz e outras fusões sonoras tiveram lugar. É o caso do ótimo show do Brian Auger Oblivion Express, que iniciou sua carreira nos anos 1970. Hoje é praticamente uma banda em família: Brian nos teclados e seus filhos Savannah (vocal) e Karma (bateria). Auger conduziu um repertório variado, desde seu primeiro álbum solo, de 1968, com “Bumpin’ on Sunset”, composição de Wes Montgomery, até pontos diversos da carreira do Oblivion Express como “Truth” (1972), “Straight Ahead” (1975) e “Indian Rope Man” (1999).  Um tom de bossa nova acompanhou algumas músicas.

O Soft Machine Legacy não foi apenas uma mera cópia da famosa banda dos anos 1970, o Soft Machine. Os músicos mostraram a que vieram: John Etheridge (guitarra), John Marshall (bateria) e Roy Babbington (baixo) fizeram parte do grupo original, e Art Themen apareceu como convidado no sax. O que não faltou foi energia e vibração, como diz o nome da banda, o legado foi mantido.

Segundo Etheridge, o estilo progressivo não tem mais o mesmo espaço na Inglaterra, terra natal da banda, e enalteceu o entusiasmo dos fãs brasileiros.

Movimento e Problemas técnicos

As atrações do palco Arouche receberam grande público, especialmente os shows de Ritchie, Elymar Santos e Marina Lima, que sofreu com as falhas técnicas em várias ocasiões. O palco Barão de Limeira teve como principais protagonistas Almir Sater e Renato Teixeira, dois grandes divulgadores da música de raiz brasileira. 

A Avenida São João concentrou representantes do ska e reggae. Marcelo Yuka (ex-Rappa) e a grupo britânico veterano Steel Pulse foram destaques neste palco.

E quem disse que o canto lírico não tem espaço no gosto popular? As duas apresentações da ópera Pagliacci com a Orquestra Sinfônica Municipal lotaram o Pátio do Colégio. E as imagens projetadas pela Visualfarm foram uma sensação à parte para completar a cena perfeita.

De Liverpool para a São João

Beatles4ever (foto: Ciro Hiruma)

Beatles 4ever (foto: Ciro Hiruma)

Quem enfrentou uma verdadeira maratona foi a banda Beatles 4Ever, que tocou o repertório completo do quarteto de Liverpool no bulevar São João. O esforço valeu a pena: durante as últimas apresentações, quando tocaram os dois volumes da série Past Masters, os músicos ainda estavam um boa forma, apesar do desgaste madrugada adentro. O grupo contou sempre com um ótimo público, de várias faixas etárias, e mostrou que a música dos Beatles continua mais viva do que nunca. No final, antigos membros do grupo foram convidados a participar da festa.

O que faltou?

Apesar de todo o ecletismo da Virada Cultural, fica uma pergunta no ar: o Brasil não tem representantes de qualidade no pop, rock e MPB na atualidade? Porque neste segmento a programação abriu um grande vazio. No palco Santa Ifigênia, a cultura periférica foi bem representada por bandas como Versão Popular e Nhocuné Soul.  Já na Casper Líbero, parte da cena musical independente também compareceu. Os nomes significativos do pop e rock de hoje estão além do que apontam as paradas de sucesso. E merecem atenção para a próxima edição do evento, é uma questão de pesquisar as redes sociais, profissionais do ramo, músicos e descobrir atrações que associam qualidade e apelo popular.

Vale lembrar que no ano passado pelo menos a Pitty esteve presente ao evento. E ela não é a única representante de uma geração jovem que despontou nos últimos anos.

Segurança, transporte e apoio ao público

Quem transitou pelas principais vias da Virada Cultural no centro da cidade encontrou um policiamento mais caótico do que no ano passado. Embora o efetivo se concentrasse em massa em certas regiões, outras ficaram desguarnecidas, a distribuição foi irregular como em 2010. Ocorreram menos casos graves, mas em compensação, roubos de celulares, carteiras e câmeras fotográficas aumentaram consideravelmente, segundo o depoimento de policiais que faziam a segurança de vários pontos do centro.

Uma grande falha foi a falta de coordenação entre o evento e os veículos de transporte coletivos.  Os ônibus circularam sempre lotados, a disposição da frota foi drasticamente reduzida. Mas o grande problema foi o metrô. Fechar estações importantes, como no caso da São Bento (durante a madrugada e a partir das 20:00h de domingo) foi um desserviço a população.  A estação Sé, única em funcionamento na região, sofreu com a superlotação ao seu redor. O resultado foi um certo tumulto na praça e no interior da estação.

Saldo Final

A edição 2011 da Virada Cultural teve como ponto positivo a vinda de atrações importantes e surpresas muito agradáveis na programação. Em compensação, uma parte importante da cena musical brasileira de hoje permaneceu alienada em relação ao evento. Enquanto isso, artistas veteranos estavam presentes até em excesso, alguns de grande relevância, outros de caráter duvidoso. Pelo menos não aconteceu o erro do ABBA cover do ano passado.

O mesmo vale para as atrações internacionais, embora em maior número do que nas edições anteriores, foi raro ver shows com a mesma qualidade de Edgar Winter, Soft Machine Legacy, Brian Auger Oblivion. A escolha poderia ser mais criativa e seletiva neste sentido.

A segurança necessita ser revista e os meios de transporte precisam oferecer mais opções à população. Os banheiros químicos estavam em condições lastimáveis no fim de cada dia.

Poderia ser melhor? Com certeza, mas é o caso de se esperar a próxima edição. A experiência deve servir como referência para mudanças em 2012. Afinal a Virada Cultural tende a crescer e todo a infra-estrutura do evento deve acompanhar esta evolução, visando sempre a segurança e conforto do público.

Links:

Fotos da Virada Cultural no Flickr

Leave a Reply