Virada Cultural 2010

Palco São João (foto: Ciro Hiruma)

Palco São João (foto: Ciro Hiruma)

São Paulo – 15 e 16/05

Ciro Hiruma

A Virada Cultural 2010 foi marcada pelo ecletismo. Apostar em várias tendências culturais e oferecer ao público uma diversidade de eventos, uma excelente iniciativa da Prefeitura de São Paulo.

Música, cinema, poesia, fotografia, teatro, artes plásticas, marciais e acrobáticas. Diversão e conhecimento para todos os gostos. Houve até espaço para a “Dimensão Nerd” na Praça Roosevelt com a presença de desfiles temáticos (Star Wars, Jornada nas Estrelas), games, RPGs e HQs.

Na área musical, a diversidade de estilos sonoros também foi essencial com atrações de ótima qualidade, eventos que despertaram a curiosidade e outros de origem bem duvidosa.

Experimental e inovador

Hermeto Pascoal (foto: Ciro Hiruma)

Hermeto Pascoal (foto: Ciro Hiruma)

O palco do Boulevard São João abriu a noite com categoria: Hermeto Pascoal levou sua música experimental e inovadora para o grande público, acompanhado por uma ótima banda. Sua parafernália sonora reuniu o que seria inusitado para outro músico, mas habitual em suas apresentações: chaleira, instrumento feito com garrafas, o uso dos mais variados objetos de percussão. Foi muito aplaudido no belo palco futurista em forma de redoma, mas com iluminação deficiente.

Airto Moreira e o norte-americano Booker T. foram outros destaques no Boulevard.

Um cenário para grandes espetáculos

A estrutura montada na Praça Júlio Prestes possuía as maiores dimensões e recursos (som e iluminação), por este motivo foi a escolha certa para alguns dos melhores shows.

Zélia Duncan é uma cantora em constante evolução. Nos últimos anos, este crescimento se acelerou com o CD Pelo Sabor do Gesto (2009) e sua participação nos Mutantes. Aliás, a música de encerramento foi uma ótima versão de “Ando Meio Desligado”, da banda dos irmãos Baptista. A cantora mostrou um domínio perfeito de seu espaço no palco e um intenso carisma, acompanhada por uma banda empolgante, que seguiu seu ritmo. 

A seguir, o palco da Júlio Prestes recebeu a cantora Céu, uma das revelações da MPB. Sua música associa de forma original uma série de influências: ritmos latinos, leves toques techno-eletrônicos e um teclado que reproduz o timbre do órgão Hammond que fez a platéia voltar ao final dos anos 1960, em pleno psicodelismo. Apesar de toda esta fusão sonora funcionar muito bem, o show se tornou um pouco cansativo a partir de um certo momento.

Vernon Reid (Living Colour)

Vernon Reid (Living Colour)

E chegou a vez da banda norte-americana Living Colour mostrar que continua em plena forma. O espetáculo começou com um clássico da banda, “Type”, e acabou com outro, “Elvis is Dead”, que passou da crítica ao consumismo em torno do rei do rock a uma homenagem, com direito a um trecho de “Hound Dog”, sucesso de Presley. O vocalista Corey Glover confraternizou com o público, percorreu a multidão e demonstrou uma imensa energia. Vernon Reid (guitarra), Doug Wimbish (baixo) e Will Calhoun (bateria) uniram uma notável vontade de tocar a um brilhante exercício de técnica e talento. Um dos melhores momentos da Virada Cultural, apesar dos problemas técnicos que prejudicaram a qualidade sonora.

Passado ou presente?

Uma tendência desta edição da Virada Cultural foi a presença de músicos que atuaram ao lado de grandes nomes já falecidos. A apresentação do Grande Mothers Re: Invented rendeu bons resultados, Contou com três ex-membros do grupo de Frank Zappa: Napoleon Murphy Brock (vocal, sax tenor, flauta), Roy Estrada (baixo e vocal) e Don Preston (piano, teclados, sintetizadores e vocal). Uma proposta simpática, irônica e bem-humorada que seguiu os passos do seu mentor. No repertório, clássicos como “Peaches em Regalia”, “Montana” e “Little House I Used To Live In”.

Na direção oposta, o Big Brother and the Holding Co., banda que acompanhou Janis Joplin. Apesar do esforço e da boa presença da vocalista Sophia Ramos, a proposta não funcionou bem, estava mais para banda cover desfilando saudosismo em vão. Não houve “Summertime” que resistisse a falta da falecida cantora.

Mas se o assunto é cover, lamentável mesmo foi ouvir o suposto ABBA, que não trouxe sequer um membro do quarteto original. Estavam presentes meros coadjuvantes, liderados pelo guitarrista Janne Schaffer e o saxofonista Ulf Andersson. Pura tapeação. A própria organização da Virada Cultural revelou que foram enganados pelo empresário do espetáculo. Fatos como este não podem se repetir porque acabam comprometendo a qualidade do evento.

Para todos os gostos

A pista da Santa Ifigênia, dedicada a música eletrônica, manteve um público fiel até mesmo na madrugada. O mesmo não aconteceu com o palco dos artistas independentes, na av. Casper Líbero, que não entusiasmou a pequena platéia na maioria das atrações. Muitos preferiram dançar do lado de fora e houve um breve princípio de tumulto.

Já o palco da Vieira de Carvalho recebeu um bom número de fãs para acompanhar atrações populares como Sidney Magal, Jerry Adriani, Wanderléa e Vanusa, que foi recebida com expectativa após o fiasco do Hino Nacional. A vocalista ganhou muitos aplausos, apesar de não manter o mesmo fôlego do passado, mas conseguiu manter uma potência vocal razoável.

Rock ´n´roll sim, sujeira não!

Conforme a organização havia prometido, havia um número maior de banheiros químicos em relação ao ano passado e o serviço de coleta de lixo foi reforçado.

Pitty (foto: Ciro Hiruma)

Pitty (foto: Ciro Hiruma)

Mas na manhã do dia 16, quem se aventurou no show da cantora Pitty, no palco do rock, encontrou uma quantidade imensa de lixo espalhado na região. Havia de tudo, inclusive poças de conteúdo duvidoso e um aroma bem desagradável em certos pontos. Banheiros sem de condições de uso foram amontoados em algumas ruas secundárias.

No período da tarde, as redondezas da av. São João apresentavam um aspecto muito melhor, a equipe de limpeza faz um bom trabalho de recuperação.

Arnaldo Antunes iniciou seu show durante o pôr do sol. E quem roubou a cena foi o guitarrista Edgard Scandurra (Ira!), que se tornou o centro das atenções com seus riffs e solos criativos.

O show dos Titãs foi uma autêntica retrospectiva de sua carreira. Estavam no repertório os grandes sucessos que o público aprendeu a curtir durante todos estes anos: de “Sonífera Ilha”, do primeiro álbum, passando por “Polícia”, “Lugar Nenhum”, “Flores”, “Cabeça Dinossauro”, “Diversão”. Enfim, uma excelente seleção musical.

A breve participação de Arnaldo Antunes já era esperada, os músicos tocaram com vitalidade renovada e o público retribuiu na mesma medida, com muito entusiasmo.

A movimentação na Virada Cultural

Para evitar os transtornos do ano passado, em que as vias de acesso ficaram lotadas de transeuntes, a solução foi ampliar a área dos eventos, montando mais palcos e aproveitando espaços em várias unidades do CEU e do SESC, além de outros centros de cultura.

A região do centro, em especial, foi bastante beneficiada com o funcionamento do metrô por 24 horas. Facilitou bastante a locomoção do público.

A segurança para os frequentadores foi maciça nas principais vias de acesso dos eventos, mas não foi suficiente para abranger todas as regiões. A Cracolândia, perto do palco Júlio Prestes, estava muito bem vigiada em seu perímetro, mas quem não conhecia o centro da cidade e passou por dentro do local, especialmente as ruas secundárias, viveu momentos de apreensão e medo. O mesmo aconteceu em pontos próximos da Praça da Sé e Largo São Bento.

Para a Virada Cultural do próximo ano, devem permanecer pontos importantes como a ampliação do número de atrações, o ecletismo cultural e a facilidade de acesso aos eventos. A segurança necessita uma melhor distribuição e as condições de higiene e limpeza ainda precisam ser revisadas.

Mas o saldo é francamente positivo e a tendência é que o espaço para a cultura esteja cada vez mais próximo do público.

Veja fotos da Virada Cultural no Flickr.

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