Viva Elvis

CD Review

Ciro Hiruma

Para alguns é como tocar o Santo Graal, a Arca da Aliança, o Santo Sudário. As gravações originais de Elvis Presley são sagradas, devem ser preservadas na memória como um patrimônio histórico. Qualquer ten-tativa de alterar este material é tão somente um pecado mortal.

Viva Elvis é o espetáculo do Cirque du Soleil que pretende alcançar este objetivo: trazer a música do rei do rock para o século 21 sem perder a sua essência e integridade. Tarefa difícil ao extremo. E a audição do CD só comprova que a façanha deu certo e ainda impressiona: a qualidade do material é excelente.

A introdução não poderia ser outra, “Also Sprach Zarathustra”, tema do filme 2001: Uma Odisseia no Espaço, abertura dos shows do cantor nos anos 1970. Um mix de trechos de rap e percussão completa o clima épico da música.

A primeira audição de “Blue Suede Shoes” pode soar estranha a certos fãs. Em ritmo mais lento, realça o lado blues, com direito a um ótimo solo de gaita. Mas a entrada da guitarra, riffs ao estilo Bo Diddley aliados ao peso hard rock, fazem a composição ganhar presença e se tornar contagiante.

“That´s All Right” vai buscar o jovem Elvis nos primórdios de sua carreira, na gravadora Sun Records. Um andamento dançante, que lembra o tema do filme Footloose (1984) revela um ar revigorante, pulsante. A inclusão de trechos de “I Got a Woman”, autoria de Ray Charles e sucesso de Presley, foi uma ótima escolha: a frase “well, well, well”, em tom sexy e ao mesmo tempo gospel. Sim, o vocalista era especialista nesta fusão religião/sensualidade.

É a mesma “I Got a Woman” que recebe o ouvinte em “Heartbreak Hotel”. O tom gospel solene logo cede espaço para o rhythm ´n´ blues, que é o estilo original da música. As guitarras também resgatam Scotty Moore, que atuou ao lado de Elvis entre 1954-1968, considerado um pioneiro na criação do estilo rock. As mudanças acontecem quando a big band de “New Orleans”, canção do filme King Creole (1958) estrelado pelo rei, entra em cena. E não poderiam faltar, é claro, os “clics” de vinil para completar o clima vintage.

“Love me Tender” surpreende. Mantém o clima acústico, mas apresenta uma notável atualidade. Perfeita associação piano-violão. E o vocal de Dea Norberg, que faz dueto com o vocalista, consegue se manter bem neste contexto. Uma comparação? O contraste entre as vozes de Robert Plant e Alysson Krauss no álbum que gravaram juntos, Raising Sand. Não fosse Plant um grande fã de Elvis, como se sabe.

E que tal percorrer novamente a rota de King Creole e sua faixa-título? Alguns aficionados podem se desapontar com o andamento menos ágil em relação a versão original. Mas a inclusão do “cantar” dos vendedores ambulantes das ruas de Nova Orleans, cena de abertura do filme, ficou excelente. Não poderia captar melhor a imagem da cidade há mais de 50 anos.

“Hal Wallis!” – diz Elvis, citando o produtor da maioria de seus filmes. “Bossa Nova Baby” faz parte da trilha de O Seresteiro de Acapulco, que o rei protagonizou em 1963. Como esperado, a influência mexicana aparece nítida (e de bossa nova não tem nada!). A mudança favorável é que a percussão perdeu aquele jeito estilizado como o cinema norte-americano tratava a música latina na época. Soa mais autêntica e mantém o inesquecível e simples solo de órgão, coloca-o em destaque.

A próxima parada é o hit “Burning Love”, que Elvis gravou em 1972. A percussão é o ponto alto e coloca a música como destaque do CD. Lembra em parte a versão de Melissa Etheridge no “It’s Now Or Never, The Tribute To Elvis” (1994) a vibração, o poder de fogo. Quando a agressividade das guitarras marca presença, soa totalmente atual, para nenhum fã do Muse, Kings of Leon ou The Killers colocar defeito.   

Em “Can´t Help Falling in Love” a mudança é significativa. O clássico do filme Feitiço Havaiano ganhou uma levada trip hop e influências do acid jazz. O vocal de Sherry St-Germain lembra cantoras como Alicia Keys e Aaliyah. Fãs tradicionais podem não gostar, mas as alterações dão uma nova vida para a música, inusitada e agradável. Mais ponto positivo.

E para finalizar, a obra-prima: “Suspicious Minds”. Traz o arranjo de cordas original e acrescenta altas doses de modernidade: riffs de guitarra repletos de energia, demolidores. Bateria no melhor estilo grunge, influência fundamental para boa parte das bandas de rock de hoje. Uma aliança perfeita de suingue e dinâmica.  E os efeitos eletrônicos na medida certa, para preencher os espaços.  Esta versão é simplesmente explosiva, uma sucessão de climas que entram na hora certa, no momento certo. Show!   

Faltou comentar as duas vinhetas que servem como “divisor das águas” entre as cenas (sim, visualize o Cirque du Soleil!). “Memories” e seu arranjo orquestral do ´68 Comeback, o especial de TV que colocou Elvis novamente no topo da cena musical, após um grande período de ausência nos palcos. E “You´ll Never Walk Alone”, apenas ao piano, evocado o gospel. 

A música de Elvis Presley já foi alvo de inúmeras mudanças, desde versões remix, alteração completa da seção instrumental e duetos, alguns inusitados. Os resultados variam de ótimo até desastroso. Viva Elvis conseguiu reunir em um único CD o melhor do rei e levar sua música para as novas gerações. A legião de admiradores só tende a crescer.  Elvis is back!

Links:

Elvis Presley – Site Oficial

Cirque du Soleil  - Viva Elvis

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