Trisector – Van der Graaf Generator

TrisectorAltas voltagens sonoras

Ciro Hiruma

Van der Graaf foi o cientista que inventou um gerador, em 1931, capaz de produzir potentes correntes elétricas na ordem de 20 milhões de volts, uma façanha para a época.

Em 1969, uma banda de rock progressivo achou que este era o nome ideal para representar todo o potencial da banda: energia, vigor e uma música capaz de eletrizar realmente os ouvintes. Era o início do Van der Graaf Generator que teve em sua formação mais conhecida Peter Hammill (vocal, guitarra, piano), Hugh Banton (teclados, pedais de baixo e guitarra), Guy Evans (bateria) e David Jackson (saxofone e flauta). Embora tenha conquistado fama e respeito entre os fãs do movimento sonoro, especialmente na Itália, o grupo encerrou a carreira em 1978, com o álbum ao vivo Vital. Foi uma era difícil, com a ascensão da disco music e outros movimentos musicais. Sinal de mudanças significativas na preferência do público.

Dos anos 70 pulamos direto para 2005, quando bandas como o Dream Theater, Enchant, Porcupine Tree e Spock´s Beard, entre outras, criaram um ambiente ideal para o retorno do movimento progressivo. O Van der Graaf voltou com a sua formação considerada “clássica”. O CD duplo Present não representou uma mudança radical na sonoridade de uma banda que sempre privilegiou a criatividade. A saída de David Jackson e o lançamento do álbum ao vivo Real Time completam este ciclo da banda.

E chegamos finalmente a Trisector, que acrescenta novidades que valorizam muito a visão original e experimental do grupo, sem deixar de manter seu estilo pessoal.

A instrumental “The Hurlyburly” é praticamente um hard rock, direto e básico, que traz uma certa atualidade na bateria de Evans e um clima anos 60-70 pelo uso do órgão Hammond. Peter Hammill nunca foi um grande guitarrista, mas seu suporte é um complemento ideal para a música.

“Interference Patterns” é um caos controlado sob forma de música. Uma linha minimalista de órgão, ritmos percussivos dissonantes e o vocal sombrio de Hammill conduzem a ação.

Duas composições citam idéias sobre a vida e a morte. Em Lifetime, é a analogia entre o tempo e a correnteza de um rio: “Leva-se uma vida inteira para compreender o fluxo da corrente, deixar-se entregar, ser levado ao longe”. A serenidade do órgão de Banton faz recordar o ritmo lento das águas, com leves toques de guitarra que surgem aqui e ali. É uma filosofia que prega um conceito: descobrir o sentido da vida pode levar toda uma existência.

“The Final Reel” é a última atuação de um casal de dançarinos em seu declínio nos salões de bailes: “Sayonara, tschuss, adieu, farewell/ Nos encontraremos de novo? Ninguém pode dizer/ não há jeito, não há tempo/ Ninguém pode esconder, ninguém pode deixar o último rodopio para trás”. Para representar a cena, nada melhor do que um clima levemente jazzista e o vocal repleto de tensão de Hammill.

“All that Before” é puro rock e permite a bateria de Guy Evans exibir criatividade, introduzir cada vez mais elementos inusitados em sua atuação. Uma urgência e dinâmica que também está presente em (We are) Not Here, que fecha o CD.

Não podia faltar um destaque: “Over the Hill”. Introdução de órgão estilo filme de terror que gradualmente evolui para uma a sequência mutante, em que se alternam os ritmos e os músicos põem em prática toda a sua técnica para criar uma sonoridade intrincada, repleta de variantes sonoras.

Para o fã do Van der Graaf, é fácil explicar esta sonoridade intrincada, basta citar os momentos mais dinâmicos de “A Plague Of Lighthouse Keepers”, do álbum Pawn Hearts. E para os recém-chegados que não conhecem a banda? Que tal lembrar dos trechos instrumentais de “Metropolis” ou “Dance of Eternity” do Dream Theater? Cada banda com seu estilo e sua época, mas a intenção tem semelhanças.

Trisector é puro Van der Graaf Generator, mesmo com a ausência de David Jackson. A ousadia e a vanguarda continuam intactos.

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Página oficial de Peter Hammill

Mais uma página de Peter Hammill e Van der Graaf Generator

Van der Graaf Generator

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