Tangerine Dream: Futurismo Eletrônico | Music Time

Tangerine Dream: Futurismo Eletrônico

 

CD ReviewTD Red Train

 

Ciro Hiruma

Manter uma banda em atividade durante 40 anos é uma façanha. Senão uma raridade. É exatamente o caso do Tangerine Dream.

O grupo foi fundado em 1967 por Edgar Froese, estudante de pintura e desenho na Berlin Academy of Arts e amigo de Salvador Dali. O músico trabalhou ao lado do pintor em sua residência, na ilha de Lligat, na Espanha, criando os famosos happenings, eventos típicos do movimento hippie, o flower power. Era a origem do espetáculo multimídia: música, pintura e literatura formavam um único acontecimento, um festival de cultura.

Assim, o Tangerine Dream contou com várias influências em sua sonoridade: por um lado, a música dos Beatles, Jimi Hendrix e Pink Floyd. Por outro, uma vertente totalmente experimental, de vanguarda, no estilo dos compositores John Cage, Gyoergy Ligeti e Iannis Xenakis. Havia pontos em comum entre as duas tendências: a música eletrônica, especialmente com o advento de um novo instrumento, o sintetizador Moog. E a idéia de gerar sonoridades inéditas e inusitadas que fossem criadas por instrumentos convencionais. Basta ouvir a guitarra de Hendrix na versão do hino americano no Festival de Woodstock e compreender que não havia limites para a criatividade.

O segredo da longevidade do Tangerine Dream é o seu incrível poder de renovação. Apesar de inúmeras mudanças na formação (apenas Froese se mantém desde o início), a música sempre acompanhou as novas tendências sonoras. O grupo foi o precursor do chamado Berlin Sound, que deu origem a movimentos como a new age, tecnopop e a techno music.

Foi o ponto de partida para a carreira de Giorgio Moroder nos anos 70, conhecido como mentor da diva disco Donna Summer e pelas trilhas sonoras que compôs como Scarface, A Marca da Pantera, O Expresso da Meia Noite. Na década de 80, o grupo de Froese uniu forças com Madonna na trilha sonora do filme Vision Quest e participou do sucesso cinematográfico Risky Business, com Tom Cruise.

Em pleno século 21, o Tangerine Dream enveredou por novas mudanças em sua música. Porém, seus CDs mais recentes, como a trilogia musical baseada na Divina Comédia de Dante Alighieri, e Madcap´s Flaming Dutch, tributo a Syd Barret, falecido membro do Pink Floyd, foram obras ousadas, mas que revelaram uma perda de qualidade na banda. A dinâmica e o impacto das composições deixavam a desejar em relação aos trabalhos do passado.

Views from a Red Train é o álbum que veio para “colocar tudo em seu devido lugar”. Embora não seja uma profunda inovação, resgata a energia e o potencial que estiveram presentes nas décadas passadas. Em meio a uma imensa produção cercada de sintetizadores e a infindável parafernália eletrônica, a guitarra de Edgar Froese aparece em destaque. Sem dúvida aí estão alguns de seus melhores solos dos últimos tempos.

A idéia do músico e de Salvador Dali em unir som e imagem continua presente de em todo o CD. É uma música para se ouvir e imaginar locais, regiões, paisagens. “Carmel Calif”, como diz o próprio nome, é uma viagem musical pela cidade californiana de Carmel, a programação rítmica conduz o ouvinte a um dia ensolarado, uma aventura por ruas e estradas movimentadas. Para manter o clima quente, “Fire on the Mountain” segue a mesma linha. É só lembrar dos constantes incêndios que acontecem na Califórnia (Arnold Schwarzenegger que o diga…)

Num conceito oposto, “Passing All Signs” traz vozes femininas sampleadas que se unem a uma base eletrônica e estilo sacro. Vale recordar que o Tangerine Dream já fez concertos até em catedrais! Em “Serpent Magique”, o tema místico está presente e lembra a versão eletrônica de um cântico oriental, sintetizadores minimalistas, ritmos que se repetem em ciclos, loopings.

“Hunter Shot by a Yellow Rabitt” começa com o coral de vozes femininas, mas o clima vai mudando, o ritmo ganha força e se torna denso. A percussão entra demolidora. Froese intercala suas frases de guitarra sem se preocupar em imprimir velocidade. Sua intenção é criar climas que complementem a melodia.

A seção percussiva de “Leviathan” lembra o clássico “Peter Gunn”, de Henry Mancini (assista a versão do Art of Noise), a guitarra é agressiva e lidera as ações. “Lord of the Ants” também segue o mesmo rumo, repleta de energia, começa como uma trilha sonora de suspense e gradualmente ganha dimensões épicas.

TD DiluvialPurple Diluvial é mais um lançamento do Tangerine Dream, uma proposta criativa da gravadora da banda Eastgate Music. Trata-se de um formato chamado Cupdisc, ou seja, um CD com menor duração, entre 35 a 40 minutos, e um preço mais acessível ao consumidor. A idéia é simples: desfrutar a música durante um momento de lazer, um encontro com os amigos, enquanto se toma uma xícara de chá ou café. No caso do grupo, este encontro promete não ser tão tranqüilo e relaxante. Não é um álbum feito para servir como música ambiente, ao contrário, existem momentos de pura tensão.

O grande lance de Purple Diluvial é o fato da maior parte das composições ficarem sob responsabilidade do tecladista Thorsten Quaeschning em vez de Edgar Froese (apenas autor de “Armageddon In The Rose Garden - Part II”). Isto trouxe ares novos para a banda e idéias bem diferentes de Views from a Red Train.

A faixa-título nada mais é do que pura contemplação. São três segmentos: inicia com uma entrada de piano muito bem composta que representa o aproximar de uma tempestade. A seguir o dilúvio chega e traz consigo trovões, reproduzidos eletronicamente e a percussão se torna agitada, caótica. Por fim, a serenidade após a tormenta, sons tranqüilos encerram a composição.

“Babylon the Great Has Fallen” tem uma ótima linha melódica e reflete a idéia do título: uma cidade grandiosa, representada por sintetizadores imponentes que representam ao mesmo tempo um clima intenso, que cresce no decorrer da música, e uma certa nostalgia, uma tristeza que se traduz na decadência desta metrópole.

“Armageddon in the Rose Garden (Part II)” começa com sintetizadores algo tétricos, como um filme de terror, e continua em clima de suspense com a percussão rítmica rápida que domina a música até o fim.

Se alguém acredita que uma banda formada em 1967 é um caso de saudosismo, basta assistir o vídeo a seguir:

Oriental Haze

Recorded Live at Shepherds Bush London in June 2005

www.voiceprint.co.uk

 

Link:

Website Oficial do Tangerine Dream

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