Sting – Symphonicities

CD REVIEW

Ciro Hiruma

Ouvir um clássico do rock executado por orquestra pode ser uma experiência auditiva dolorosa. Esta proposta teve resultados desastrosos em várias ocasiões. Seja como caça-níqueis (proliferam rapidamente na indústria da música) ou álbuns produzidos pelos próprios artistas, os resultados são irregulares. Em certas oportunidades, os temas são explorados de forma bombástica, grandiloquentes ao extremo. Ou são adaptações medíocres, arranjos que transportam para a orquestra a mesma melodia básica do vocal, teclado ou guitarra sem qualquer resquício de criatividade.

E quando uma banda de rock e orquestra unem as forças, nem sempre o plano funciona. A impressão é de que tudo acaba em uma competição para ver (ouvir) quem toca mais, cada facção disputando os espaços. Raramente o convívio é pacífico.

Existem as exceções, sem dúvida: Zappa: London Symphony Orchestra, Journey to the Centre of the Earth, de Rick Wakeman, Tales of Mystery and Imagination do Alan Parsons Project, para citar alguns exemplos.

No caso de Symphonicities, Sting comentou em entrevistas que o objetivo era fugir do convencional, recriar a música do Police e de sua carreira solo sem se ater ao passado. O material que o músico reinventou ficou muito bom, não resta dúvida que o trabalho valeu a pena. Vários profissionais auxiliaram no arranjo das músicas, o que favoreceu o ecletismo do CD: Jorge Calandrelli, David Hartley, Michel Legrand, Rob Mathes, Vince Mendoza, Bill Ross, Robert Sadin e Nicola Tescari.

Gravado em Vancouver com a presença da Royal Philarmonic Orchestra, o álbum valoriza a parceria de Sting e o regente Steven Mercurio (já atuou ao lado de Andrea Bocelli e Luciano Pavarotti). Ambos trabalharam muito bem os inúmeros ingredientes sonoros. Incluindo a banda que acompanha o cantor: Dominic Miller (seu guitarrista e colaborador há quase 20 anos), o percussionista David Cossin (do Bang on a Can All-Stars), o baixista Ira Coleman e a excelente vocalista Jo Lawry.

O lançamento acontece via selo Deutsche Grammophon, tradicional no meio erudito.

A abertura é uma grata surpresa: “Next to You” apresenta uma percussão latina, incursões reggae que não existiam na versão original, um arranjo de cordas arrojado capaz de mudar completamente a identidade sonora da música.

“Every Little Thing She Does is Magic” é uma composição antiga de Sting. Apareceu pela primeira vez no único álbum da banda Strontium 90, em 1977. Era uma formação pré-Police, com Sting, Andy Summers, Stewart Copeland e Mike Howlett, ex-baixista e vocalista da banda progressiva Gong. A versão orquestral aproveitou a essência original da música, que é simples e belíssima, acrescentou arranjos que vão desde segmentos serenos até momentos épicos.

“Englishman in New York” não teve alterações significativas, é praticamente a mesma que aparece em Nothing Like the Sun (1987). Continua absolutamente sensacional, mas mantém o mesmo andamento jazzístico. Apesar do ótimo desempenho dos sopros, não é relevante. “We Work the Black Seam” é um clássico de Sting, mas se encaixa no mesmo perfil da música anterior. Já “When We Dance”, faixa inédita que aparece na compilação Fields of Gold, jamais foi uma canção especial. Continua muito discreta e sem nenhum realce.

Em 2003, Sting compôs e gravou “You Will Be My Ain True Love” para a trilha do filme Cold Mountain, ao lado de Alysson Krauss. O tema trata da guerra civil americana e a sonoridade é curiosa: tem ao mesmo tempo um apelo folk e um tom solene, britânico. Como se unisse o rústico ao sofisticado. A seção de cordas realça a canção com delicadeza e expressividade e o vocal de Lawry é essencial neste contexto.

Sting (Foto: Divulgação)

Sting (Foto: Divulgação)

“Burn for You” era uma composição quase desconhecida do Police, da trilha do filme Brimstone and Treacle (1982), em que Sting participa como ator. Mais foi com o lançamento de seu álbum solo ao vivo Bring on the Night (1986) que recebeu o devido destaque. Aqui é um caso de gosto pessoal: se por um lado a tendência sinfônica foi produzida com grandiosidade e imponência, a proposta jazz de 1986 tem seus méritos pela sutileza. No fim, quem sai ganhando é o ouvinte, são duas ótimas opções. 

“I Hung My Head”, de Mercury Falling (1996), apresenta o período mais fraco da carreira de Sting. A recriação saiu melhor, embora não consiga segurar o interesse do começo ao fim.

Quem se recorda de Sting tocando “Roxanne” ao violão no The Secret Policeman’s Ball, evento beneficente da Anistia Internacional, vai descobrir o que a orquestra fez: resgatou a simplicidade da melodia e a transformou em um momento sensível e suave, distante da versão rock original.

“The End of the Game” é uma daquelas músicas para levar a uma ilha deserta, paradisíaca, com um certo estilo hollywoodiano. A orquestra trabalha muito bem as transições, em um instante tranquila, no seguinte emerge em proporções épicas.

Curioso é saber como Sting iria resolver o tom exato de “She´s So Good to Me”, uma vibrante canção do álbum The Soul Cages (1991). A orquestra realçou o estilo dançante da música, evocou os bailes dos anos 1930 e 1940, o jazz em sua forma mais popular.

“The Pirate´s Bride” encerra o álbum com jeito de fim de festa. Imagine o mesmo salão de bailes da música anterior com apenas um casal dançando, a banda cansada pronta para desfilar os acordes finais e o barman servindo os drinques para os últimos clientes.

Sting está com a voz em grande forma, não parece que tanto tempo se passou desde que o Police lançou Outlandos d’Amour em 1978, seu primeiro álbum. É bom saber que a qualidade se manteve com o passar dos anos.

E para encerrar, uma curiosidade: o título Symphonicities é uma referência direta ao álbum Synchronicity (1983), mas não traz nenhuma música do mesmo!

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