Nena – Made in Germany

CD Review

Ciro Hiruma

Made in GermanyNo fim dos anos 70, um movimento musical ganhou as paradas de sucesso do planeta: a new wave. Além da influência direta do punk, havia espaço para várias sonoridades: o british pop dos anos 60, a surf music, o reggae, o rock ´n´ roll dos pioneiros da década de 50. Uma facção em especial dedicou-se a eletrônica para criar seu som. Assim surgiu o tecnopop ou synth rock.

O ponto de partida para o tecnopop foi música eletrônica alemã produzida nos anos 70 por bandas como Tangerine Dream e Kraftwerk. Foi através desta proposta sonora, conhecida como Escola de Berlin, que Giorgio Moroder criou o mito Donna Summer na era disco music. E foi na fronteira cultural germânica que o movimento techno (acid house, drum ´n´ bass, trip hop, trance, etc.) buscou recursos para produzir suas composições.

Bandas como o Duran Duran, Spandau Ballet, Soft Cell e Ultravox consagraram o tecnopop com o uso intensivo de sintetizadores, sequencers, programação, drum machines. A palavra MIDI (Musical Instrument Digital Interface) se tornou presença obrigatória no vocabulário dos músicos e interligou instrumentos, computadores e talento criativo em um só conceito.

Em 1984, o grupo tecnopop alemão Nena alcançou as paradas de sucesso ao redor do mundo com o hit “99 Luftballons” (e sua versão em inglês, “99 Redballons”). Apesar do título parecer inocente, era na realidade um hino político sobre a Alemanha dividida em dois blocos, o Ocidental e o Oriental. Balões pairam sobre o Muro de Berlin, alcançam a porção leste do país e desencadeiam a paranóia militar:

“99 balões vermelhos/ Flutuando no céu de verão/ Sirene de perigo, alerta vermelho/ Há algo aqui de outro lugar/ A máquina de guerra vem à vida/ Abre um olho ansioso/ Focalizando-o no céu/ Onde 99 balões vermelhos passam.”

Até a dissolução em 1987, a banda Nena manteve-se nas paradas, embora sua popularidade estivesse cada vez mais restrita aos países europeus. A partir daí, a vocalista Nena Kerner partiu para a carreira solo e esteve sempre na ativa, apesar de problemas pessoais que envolveram a saúde e a perda de um filho.

Em 2002, a cantora contou com uma súbita uma ascensão de popularidade, regravou antigos sucessos e colocou muito material inédito no mercado. Conseguiu uma façanha e tanto: atualizar seu som sem perder a identidade musical.

Nena Kerner (foto: Felix Lammers)

O CD Made in Germany é mais uma etapa na evolução musical de Nena, que busca inspiração do passado mas encontra no presente a motivação para inovar e receber a adesão de novos fãs.    

Em “SchönSchönSchön”, os sintetizadores techno e as guitarras rock se unem para criar uma atmosfera repleta de distorção. Baixo e bateria disparam em ritmo acelerado e a vocalista mostra que está em plena forma.

A influência eletrônica da Escola de Berlin aparece nítida em “Du Bist So Gut Für Mich”. Os sintetizadores têm presença maciça, o que não é surpresa, afinal Uwe Fahrenkrog-Petersen era o tecladista da banda Nena. A guitarra cria uma poderosa e incessante linha de riffs.

“Ich Bin Hyperaktiv”, como o nome revela, é completamente alucinante pela dinâmica dos instrumentos, que se unem em um bloco único, demolidor. Nena Kerner mostra que sua voz é personalíssima, uma identidade única. O ótimo baterista é Van Romaine, da Steve Morse Band.

Sintetizadores e programação tornam “Dreh Dich” absolutamente dançante, um techno que recorda Confessions on a Dance Floor de Madonna. São cantoras da mesma geração. Aliás, falando em gerações, a filha de Nena, Larissa Kerner, marca presença no vocal.

Camadas múltiplas de teclados também estão presentes em “Geheimnis”, que é uma versão atualizada do pop rock da banda Nena. Segue o mesmo padrão de qualidade dos melhores momentos do grupo.

Selecionada para ser o primeiro CD single, “Wir Sind Wahr” é mais comercial, um show de interpretação vocal. Se fosse gravada em inglês, poderia ser um hit no mercado norte-americano. Mas a cantora não se importa com isso e faz questão de mostrar sua origem na faixa-título, um autêntico rock “Made in Germany”, com sotaque musical próprio.

Mudança radical: a primeira balada acústica do CD em “In Meinem Leben”. Violão e voz percorrem, sensuais e suaves, toda a canção que recorda o antigo hit de Nena, “Lass Mich Dein Pirat Sein”.

Mais uma surpresa agradável: “Es Gibt Keine Sicherheit” traz riffs de guitarra no melhor estilo grunge, um refrão pop acessível, e volta no tempo para colher sonoridades da banda The Who, especialmente a bateria alucinante de Keith Moon, seu peso e poder de ataque.

Neste ponto o CD se torna mais experimental, é o caso de “Schmerzen”. Os sintetizadores ficam em primeiro plano e guitarra injeta altas doses de distorção. Explosão sonora capaz de derrubar o que restou do Muro de Berlin.

“Ganz Viel Zeit” tem uma levada eletrônica densa que resulta um clima orquestral. Sakias Kerner, filho de Nena, faz uma participação especial, leva jeito para vocalista. Múltiplas referências: “Justify My Love” da Madonna, guitarras floydianas típicas de David Gilmour e aquele clima de grand finale de “A Day in the Life” dos Beatles. Tudo isso soa estranho? Só ouvindo para crer.

A faixa “Nachts Wenn Es Warm Ist” leva a crer que o álbum se encerra com uma canção tranquila. Grande engano: um rock épico no estilo “Kashmir” do Led Zeppelin emerge subitamente e surpreende o ouvinte.

Assim é Made in Germany, um álbum eclético, maduro e atual. Nena Kerner não deixa espaço para o saudosismo. Sua música retrata o presente mas segue de perto o futuro.

Made in Germany (2009)

Gravadora: The Laugh & Peas Company

1. SchönSchönSchön 3:50
2. Du bist so gut für mich 4:27
3. Ich bin hyperaktiv 3:46
4. Dreh dich 3:15
5. Geheimnis 4:14
6. Du hast dich entschieden 4:13
7. Wir sind wahr 5:41
8. Made in Germany 3:44
9. In meinem Leben 5:38
10. Es gibt keine Sicherheit 3:25
11. Schmerzen 5:33
12. Ganz viel Zeit 6:29
13. Nachts wenn es warm ist 5:49 

Músicos

Nena Kerner – vocal, guitarra adicional (10) e programação (3,11)
Derek von Krogh - baixo (3,5,6,8,9,10,11,12,13) e guitarra (1,3)
Van Romaine - bateria (1,3,5,7)
Paul di Leo – baixo (1,5,7)
John Andrews  - guitarra (exceto na faixa 4) e baixo adicional (13)
Philipp Palm - bateria (2,4,5,6,8,10,11,12,13)
Uwe Fahrenkrog-Petersen – teclados (2,4,6,7,8,12), programação (4,8) e arranjo de cordas (7,12)
Reinhold Heil – teclados (2,6,7,8,11)
Sakias Kerner – vocal (11,12)
Larissa Kerner - vocal (4)
Orquestração por Jonathan Levi Shanes & Reinhold Heil
Orchestra conduzida por Adam Klemens

Links:

Site Oficial (em alemão)

Vídeos:

Wir Sind Wahr

99 Luftballons (Techno Remix 2009) 

One Response to “Nena – Made in Germany”

  1. Joao Pedro Roberto on agosto 22nd, 2012 at 6:50

    Excelente critica!
    É mesmo um album fantástico embora eu seja um suspeito fâ de Nena!
    Nena cresceu muito como cantora bem como a evolução e actualização do som da banda,que sabemos não é a de origem inicial,mais simples e de som mais puro.
    Actualmente aguardamos todos com grande expectativa o novo album!

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