Lush: A Liberdade de Expressão Feminina

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Ciro Hiruma

Quando um grupo recebe o status de clássico, é comum aceitar que se trata de um nome reconhecido por sua fama e influência no meio musical. Mas a mídia comete imensos lapsos de memória e provoca grandes injustiças. É o caso do Lush.

O grupo fez parte do movimento musical britânico chamado shoegazing, que despontou nos anos 90. Várias bandas que apostavam no estilo se preocupavam mais em tocar e deixavam a performance nos shows em segundo plano, Daí a denominação do gênero sonoro, ou seja, shoe gaze – “olhar para o sapato” – para baixo – principalmente pelo uso intensivo que faziam dos pedais de efeitos de guitarra.

Porém, o Lush tinha uma atuação incendiária, especialmente com a carismática vocalista e guitarrista Miki Berenyi. Emma Anderson comandava a guitarra e mostrava uma presença notável nos backing vocals. Sua voz fazia linhas melódicas paralelas, que completavam as músicas de forma pessoal, única.

O baixista original Steve Rippon cedeu seu lugar para Phil King. E o baterista Chris Acland sabia como trabalhar as variações rítmicas, além de ser o músico que impulsionava a dinâmica das composições.

A sonoridade do grupo mudou no decorrer de sua trajetória. Os primeiros EPs, reunidos posteriormente no CD Gala (1990) traziam sons etéreos, contemplativos, seguindo outras bandas da mesma gravadora, a independente 4AD, uma referência de qualidade na época: Dif Juzz, This Mortal Coil e Cocteau Twins. Aliás, Robin Guthrie, membro desta última formação, foi o produtor de várias faixas destes EPs.

Além desta tendência, uma vitalidade rítmica pós-punk, hardcore, e influências do pop britânico anos 60 completavam o repertório do Lush. Era uma fusão inusitada e inovadora. Nesta fase inicial, os vocais funcionavam como um instrumento adicional: se mesclavam com os demais sons da banda de tal modo que as letras nem sempre eram bem compreendidas.

O CD Spooky, de 1992, foi motivo de controvérsia entre os fãs, pois Guthrie assumiu a produção em tempo integral e se responsabilizou pela mudança no som, imprimindo um direcionamento mais pop e vocais em primeiro plano. Contudo, a canção “For Love” teve boa repercussão na MTV (inclusive no Brasil) e foi um passo decisivo para o sucesso do grupo, que deixou de ser apenas um fenômeno britânico e recebeu atenção em vários países.

Lush 2 Divulgação

O teor das letras também sofreu mudanças. Apesar de ser um grupo misto, duas garotas e dois rapazes, passaram a valorizar a liberdade de expressão feminina. A ideia de “um mundo masculino falso, rude e insensível” é abordada de forma direta. Contudo, a crítica não incidia apenas sobre os homens, mas também sobre as mulheres que aceitavam ou se deixavam enganar pelo jogo das falsas paixões. Como em “For Love”:

E quando ela cai em si, chora\ não olha para o seu interior\ Apenas cobre seus olhos\ E embora ela sinta sua tristeza\ Finge que era realmente amor.

Ou a ironia de “Ladykillers”, o típico conquistador barato que se preocupa unicamente com seu narcisismo:

Oh Deus, o rapaz tem um ego imenso\ Ele gosta de falar de si mesmo dia e noite\ E ele está vendo seu reflexo em um espelho de cinco pés, adorando a si mesmo\ Sete anos de má sorte.

A banda arriscou também temas complexos, como o abuso infantil em “Childcatcher”. A proposta de escrever letras ousadas de forma inteligente e irreverente foi um marco para a época, sempre com Berenyi e Anderson no comando criativo.

O álbum Split (1994) não teve tanto sucesso como seu antecessor, mas mostrou uma banda em constante evolução. Lovelife (1996), por sua vez, apresentou o maior índice de vendas até então e uma musicalidade mais direta e pesada.

Infelizmente a trajetória da banda teve um fim trágico: o baterista Chris Acland se suicidou (enforcamento) durante uma crise de depressão, na casa de seus pais. Em seguida, Berenyi, extremamente abalada com o fato, declarou o fim das atividades do grupo.Lush - Ciao

Ainda hoje, inúmeros bandas que descrevem o universo feminino citam os mesmos dilemas e temáticas que o Lush descreveu. Os ideais continuam os mesmos e o legado continua vivo para as novas gerações de músicos.

Todos os álbuns do grupo estão fora de catálogo, exceto a coletânea Ciao! The Best of Lush, lançada também no Brasil. Ainda é possível encontrá-la nas lojas.

 

 

 

 

 

Link:

Página não oficial do Lush (vale a pena uma visita!)

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