Jimmy Page e a Lenda de Death Wish

 

O Elo Perdido: Quem se lembra desta história?

 

Ciro HirumaDeath Wish II Cover

Entre 1974 e 1995, o ator Charles Bronson protagonizou uma série de cinema que despertou imensa controvérsia: Death Wish (Desejo de Matar). Sucesso de público, o filme original rendeu quatro continuações e levantou uma questão ética: fazer justiça com as próprias mãos.

No decorrer dos filmes, o personagem de Bronson (Paul Kersey) perde familiares e amigos vítimas da violência urbana. Alma atormentada pela vingança, elimina a todos que lhe fizeram mal, devolve a mesma dose de ódio, morte e destruição que provocou a ruína de sua vida.

Deixando de lado o conceito moral destes enredos, Desejo de Matar II (Death Wish II, 1982) tem um ponto positivo: a trilha sonora do guitarrista Jimmy Page, que na época havia encerrado as atividades de sua banda, o Led Zeppelin.

Mas para comentar as composições do músico neste filme, é preciso voltar no tempo, mais precisamente para o ano de 1972, em que a história começa.

Lucifer Rising: lisergia e experimentalismo

O diretor Kenneth Anger obteve repercussão produzindo filmes que se destacavam por temáticas ousadas, técnicas de filmagem e edição que fugiam do convencional e trilhas sonoras totalmente experimentais. Foi o que aconteceu com Invocation of My Demon Brother (1969), que teve a colaboração dos Rolling Stones, que aparecem em algumas cenas, e trilha sonora de Mick Jagger, criada a partir de sintetizadores.

Apesar de todas as extravagâncias e temas supostamente ligados ao satanismo, Anger foi considerado um diretor inovador usando técnicas cinematográficas que influenciaram a estética dos clipes do inicio da era MTV.

Em Lucifer Rising (1972) as idéias do diretor alcançam o ápice. A atriz e cantora Marianne Faithfull, conhecida por seus affairs com os Stones (Jagger, Keith Richards, Brian Jones) faz uma aparição especial e a trilha sonora fica sob responsabilidade de Jimmy Page.

Porém, neste ano o Led Zeppelin estava em intensa atividade, no estúdio e nas turnês. Anger considerou que o guitarrista não estava se dedicando ao trabalho como deveria. Após uma discussão, Page abandonou o projeto.

A escolha do novo compositor recaiu sobre Bobby Beausoleil. Uma opção no mínimo tétrica, pois ele participou da seita de Charles Manson, acusado pela morte de Sharon Tate, esposa do cineasta Roman Polanski, entre outros crimes. As composições de Beasouleil foram escritas em uma cela na cadeia. Quem quiser saber mais sobre esta tragédia pode acessar este site em inglês.

O que aconteceu com a trilha de Jimmy Page?

Parte das composições de Page estava finalizada quando o músico deixou a produção do filme. Existem cópias não oficiais circulando entre colecionadores. Trata-se de uma única suíte com pouco mais de 20 minutos. A principal curiosidade é que a base das músicas são sintetizadores. Bem inusitado para um guitarrista.

Alguns segmentos foram posteriormente utilizados no álbum In Through the Out Door do Led Zeppelin. A introdução obscura de “In the Evening” foi totalmente retirada de Lucifer Rising. Porém, é em Death Wish que se concentra a maior parte do material não utilizado em 1972.

Jimmy Page                      Foto: Led Zeppelin.com

Death Wish II:  a trilha sonora

Os produtores desejavam que a trilha fosse composta pelo veterano Isaac Hayes. Porém, o diretor Michael Winner decidiu que Jimmy Page, seu amigo, seria a melhor opção.

“Who´s the Blame”, com vocal de Chris Farlowe, traz o timbre de sintetizador típico de Lucifer Rising. A influência também está nítida em “Hotel Rats and Photostats”, com seus sons eletrônicos soturnos, aliados ao duelo de cordas e sopros de uma orquestra. E o clima fantasmagórico de “A Shadow in the City” apresenta teclados que simulam sussurros e lamentos, que poderiam se adaptar com perfeição a um filme de terror. Jimmy Page também utiliza uma guitarra sintetizada Roland em várias oportunidades.

A trilha apresenta inúmeras referências ao Led Zeppelin. “City Sirens” tem o vocal de Gordon Edwards, que lembra bastante o estilo de Robert Plant. “Prelude” é um dos grandes momentos de Page na guitarra, um dos melhores solos de sua carreira. Em apenas dois minutos de duração, o músico cria uma perfeita composição no estilo rhythm ´n´ blues que expressa a tristeza da cena em que é utilizada.

“Jam Sandwich” é mais um destaque da trilha. Page utilizou seus fraseados característicos de guitarra sob uma base funk, que focaliza a gangue adolescente que realiza os atos criminosos.   

A orquestra faz a abertura dinâmica e épica em “The Release”, que aparece durante os créditos finais, e logo cede espaço para um hard rock notável. São duas linhas de guitarra que ora se contrapõem, ora unem as forças, segundo a visão particular de Jimmy Page. Um encerramento perfeito.

A história continua…

Partes da trilha sonora de Death Wish II foram utilizadas no terceiro filme da série, mas Page não quis criar novas músicas. Prazos curtos para composição e gravação custaram muita dedicação no primeiro filme. Foi um trabalho complexo, gravado no Sol Studios, de propriedade do guitarrista.

O músico foi convidado em 1984 a compor a trilha sonora de Scream for Help, também dirigido por Michael Winner, e não aceitou o trabalho, que ficou para seu ex-colega do Led Zeppelin, John Paul Jones. Mas Page contribuiu em duas faixas da trilha, como compositor e músico.Selo Swansong

Death Wish II foi um dos últimos trabalhos editados pelo selo Swansong, de propriedade do Led Zeppelin, que encerrou as atividades em 1983. A ilustração de Ícaro voando em direção ao sol entrou para a história.

Algumas músicas do filme foram apresentadas ao vivo durantes as turnês da banda The Firm, que Page formou com Paul Rodgers (vocal), Tony Franklin (baixo) e Chris Slade (bateria, ex-Uriah Heep e futuro membro do AC\DC). Outras composições fizeram parte do setlist da tour do álbum solo do guitarrista, Outrider, de 1988.

A trilha sonora foi lançada no Brasil em vinil, ainda é possível encontrá-la nos sebos de discos. Editado em CD apenas no Japão, é um trabalho subestimado na carreira de Jimmy Page. Mas é um evento único, original e ousado.

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