Jeff Beck – Emotion & Commotion

CD ReviewJeff Beck - Emotion & Commotion

Ciro Hiruma

Jeff Beck é um mestre da guitarra e dono de um notável ecletismo. Desde a sua ascensão no grupo de british rock Yardbirds, nos anos 1960 e o início de seu próprio empreendimento, o Jeff Beck Group, com o álbum Truth (1968), o músico já transitou por diversos gêneros musicais como o blues, soul, jazz, pop, techno. Este é o conceito que o manteve sempre na ativa e em destaque: Beck é o guitarrista da metamorfose sonora.   

Capaz de agregar os melhores músicos, dos veteranos aos novos talentos, faz de sua banda uma constante mutação. Uma constelação de astros que se revezam no decorrer dos anos. Este é o motivo de sua constante revitalização e inovação.   

Em Emotion & Commotion, o grupo que o acompanha é uma formação sólida, ágil e eficiente ao extremo. O baterista Vinnie Colaiuta já tocou com Frank Zappa, Sting e Chick Corea, entre outros. O tecladista Jason Rebello acompanhou o guitarrista em várias turnês. E a revelação Tal Wilkenfeld, um dos principais nomes da nova geração de baixistas.

No mais, uma orquestra com 64 músicos e alguns convidados desempenha um papel importante neste trabalho.

O CD abre com “Corpus Christi Carol”, um poema tradicional inglês, de autoria desconhecida, encontrada em um manuscrito nos anos 1500. O compositor erudito Benjamin Britten adaptou a obra para o formato musical em 1933. Mas a inspiração principal influência que o guitarrista recebeu foi da versão que Jeff Buckley criou para seu álbum Grace (1994). Quem conhece seu estilo sabe que Beck consegue fazer seu instrumento gemer, como um lamento. A orquestra fornece a base soturna e solene, adequada para a música.

O que vem a seguir? Uma mudança inesperada na introdução de “Hammerhead”: pedal wah-wah que lembra Jimi Hendrix. E a surpresa não fica por aí. A seguir os sintetizadores dão um tom progressivo que recorda a banda Yes nos anos 1980. Não é para menos, o produtor do CD é Trevor Horn, que participou como vocalista da banda no álbum Drama e produziu o mega sucesso 90125. Steve Lipson, seu discípulo, auxilia na produção. A verdade é que a mistura de estilos funciona. Ponto positivo.

“Never Alone”, composição do tecladista Rebello, é bastante descontraída, percussão latina e toques de jazz. Ele é também o autor de “Serene”, ao lado de Jeff Beck, que segue a mesma levada , com o acréscimo do vocal de Olivia Safe. Não empolga muito.

 A versão do clássico “Over the Rainbow” é um momento menor. A guitarra segue a linha vocal de perto (sim, impossível esquecer Judy Garland!), sem grandes mudanças no arranjo. Um tanto quanto convencional para um guitarrista da categoria de Beck.

Jeff Beck (Foto: divulgação)

Jeff Beck (Foto: divulgação)

Ao contrário, “I Put a Spell on You”, composição de Screamin´ Jay Hawkins, vai buscar no rhythm ´n´ blues o melhor momento do álbum. A interpretação de Joss Stone é realmente de arrasar, vale a pena notar a evolução desta cantora. E o retorno do guitarrista ao estilo sonoro de Truth com toda a energia explosiva do início da carreira.

Joss está presente ainda em “There´s No Other Me”. A canção tem um clima meio reggae, quem for buscar “Behind the Veil” de Guitar Shop, que Beck lançou em 1990, vai achar a receita. Mas a percussão faz uma leve menção de drum ´n´ bass, que rende um toque atual à composição.

“Nessun Dorma”, de Giacomo Puccini, é um épico sinfônico que começa a pesar no repertório. Apesar de toda a competência, torna-se dispensável no repertório.

“Lilac Wine” de James Shelton, também gravada por Jeff Buckley em Grace, traz um clima de filme noir, que o vocal de Imelda May fez questão de enfatizar. Desperta certo interesse, longe de ser relevante.

E o CD termina como começou, orquestral, com “Elegy of Dunkirk”, do compositor erudito Dario Marianelli. O título é um tributo aos soldados que perderam a vida na Batalha de Dunkirk, travada na Segunda Grande Guerra entre os aliados e os nazistas.

Emotion & Commotion tem mais pontos altos do que baixos. É muito eclético. Entenda-se isso como um elogio e um defeito ao mesmo tempo porque não é um trabalho com uma identidade bem definida. E mesmo que não seja o melhor de Jeff Beck, merece atenção, especialmente porque faz sete anos que o músico não lançava um álbum de estúdio. O próximo passo do guitarrista? Impossível descobrir.

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