Iron Maiden – The Final Frontier

 

CD REVIEW

Ciro Hiruma

Quando o Iron Maiden surgiu na cena New Wave of British Heavy Metal, no final dos anos 1970, foi como se uma onda de criatividade invadisse a Inglaterra. O segredo da banda era sua constante evolução: descobrir novos rumos para a música e investir na criatividade, mostrando todo o poder de fogo e ecletismo do rock pesado.

As capas criadas por Derek Riggs e o mascote da banda, Eddie, eram uma atração à parte, especialmente para o ávido consumidor na era do vinil. Podia-se notar a série de pequenos detalhes que havia em cada ilustração, o que se perdeu com o advento do CD.

Em Piece of Mind (1983) a banda estruturou a formação básica que está presente hoje: Bruce Dickinson (vocal), Steve Harris (baixo), Dave Murray e Adrian Smith (guitarras) e Nicko McBrain (bateria).

Até o álbum Seventh Son of a Seventh Son (1987), o grupo vinha em uma incrível ascensão até a saída de Smith e a entrada de Janick Gears (bom guitarrista que havia atuado ao lado de Ian Gillan). Houve perda na qualidade sonora, embora não fosse sua culpa direta do novo integrante, mas resultado do estado coletivo da banda.

Fear of the Dark (1992) e The X Factor (1995), a despeito do polêmico vocalista Blaze Bayley, ainda contavam com algum material interessante, mas a decadência ficou evidente e se prolongou por mais de uma década, nem o retorno de Adrian Smith conseguiu minorar.

E assim chegamos a The Final Frontier. Depois de todos estes anos sem apresentar nada significativo em termos sonoros, a banda surpreendeu com a nova proposta. A qualidade de produção de Kevin Shirley foi essencial nesta mudança. Mas foram os músicos que colocaram uma notável energia em prática para ir além da “última fronteira”.

A capa do CD, de autoria de Melvyn Grant (que também ilustrou Fear of the Dark, Virtual XI e Death on the Road), traz um Eddie bem submisso, sob as garras de um alienígena.

A faixa de abertura, “Satellite 15…The Final Frontier”, leva a crer que o tema é ficção científica, como indica a ilustração da capa. E a introdução transmite esta ideia: sons percussivos retumbantes, reverberação, clima de suspense, marcial. Muito diferente de qualquer composição criada pela banda. Quando a música começa, lembra mais hard rock do que heavy metal. O andamento tem algo de “Can I Play With Madness?” (de Seventh Son) e uma característica que domina todo o CD: nunca os três guitarristas estiveram tão entrosados. No mais, uma canção típica da banda tocada com uma energia que não se via há tempos.

“El Dorado” muda a temática e parte para a lendária cidade do título, perdida em algum local remoto na América Latina. É uma questão de sorte ou azar, a sina do aventureiro: “Entrar e jogar/ Pegue um bilhete para a viagem/ El Dorado de ruas de ouro/ Consulte o navio, está quase todo lotado/ Você tem uma última chance para tentar”. Em termos musicais, não traz nada de novo ao universo da banda, especialmente por ser o primeiro single. Mas o baixo de Harris está lá marcando presença e liderando a banda.

O interesse de “Mother of Mercy” está centrado no vocal de Dickinson, que concede um clima sinistro à música. É um momento mais convencional da banda, embora a performance esteja bem coesa e vigorosa, o que a qualidade da gravação faz questão de ressaltar.

“Coming Home” abre com sintetizadores, uma levada lenta e tem riffs e solos de guitarra no estilo setentista. É um hard rock bem agradável de se ouvir, sem nenhum detalhe extra a enfatizar.

Quem recorda clássicos como “The Clairvoyant”, “The Trooper”e “The Prisoner” tem uma grande expectativa em relação a “The Alchemist”. E é justamente o momento que mais recorda o grupo em sua fase anos 1980. Metal ágil, duelos de guitarra, enfim tudo já ouvido em épocas passadas. Mas enfim, caiu muito bem neste instante do CD.

A partir daí as músicas tem maior duração e a ansiedade aumenta na mesma medida da curiosidade.

“Isle of Avalon” possui uma imensa e ótima abertura, repleta de suspense. A ilha de Avalon faz parte da lenda britânica do Rei Arthur, seria o local onde foi fabricada a espada Excalibur. Os compositores acertaram em cima, melodia perfeita, refrão instigante, solos de guitarra na medida certa e variações no andamento que mantém o interesse durante os nove minutos. Um dos melhores momentos do CD.

O tema espacial parece dominar “Starblind”: “nós dançamos entre os mundos em que orbitam estrelas/ Os ventos solares estão sussurrando, você pode me ouvir chamar”. Até a melodia recorda a visão futurista do álbum Somewhere in Time (1986). Mas a grande surpresa está na metade da música, as guitarras tomam um rumo inusitado, investem direto nos anos 1970, recordam algo entre Ritchie Blackmore e Jimi Hendrix.

A introdução de “The Talisman” tende ao acústico e lembra uma canção renascentista. A seguir, o rock pesado da banda toma os espaços, e a composição segue sem maiores surpresas.

A jornada heavy metal continua em “The Man Who Would Be a King”, que apresenta uma atuação de primeira de McBrain. Ele simplesmente utiliza a parte central da música para criar uma sequência notável de variações rítmicas e rege os demais instrumentos.

Quem conhece a banda espera que a faixa de encerramento seja um grande épico, que não decepciona: “When the Wild Wind Blows” tem uma letra apocalíptica, ventos vorazes de uma explosão nuclear, o risco da extinção da vida na Terra. Aqui as guitarras de Smith, Murray e Gears se superam e dividem os espaços com equilíbrio perfeito.

Proposta muito interessante a do Iron Maiden: a capa e o título apontam para o futuro, mas a estética musical é voltada para a década de 1970 como nenhum outro álbum da banda. É isso aí, vontade de tocar e inovar. Assim, temos o melhor CD da banda em 15 anos.

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