Heather Nova: um delicado aroma de jasmim
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CD REVIEW
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Ciro Hiruma
Heather Nova é uma artista completa. Tem uma voz extraordinária, talento notável para compor, além de ser uma mulher belÃssima. Sua performance nos clipes e shows é marcante. Poderia ser um fenômeno absoluto de vendas de CDs, estar no mesmo rol da fama de uma Alanis Morissette, Norah Jones, Amy Winehouse. Mas o sucesso não é uma prioridade em sua carreira.
Quando investe em um repertório mais acessÃvel, a resposta do público é imediata: em 1998 obteve seu maior êxito até então, “London Rain”, que fez parte da trilha sonora do seriado Dawson´s Creek. O álbum South (2001) seguia a mesma linha e “Gloomy Sunday” foi um dos temas do filme alemão Ein Lied Von Liebe und Tod.
Mas o que importa para a vocalista é ampliar e explorar ao máximo as possibilidades que a música oferece. Às vezes a sonoridade é experimental e foge completamente do convencional. Pode ganhar uma dose extra de peso e agressividade ou avançar na direção oposta, acústica com um instrumental mÃnimo.
The Jasmine Flower, seu novo CD, segue exatamente a linha acústica. O acompanhamento básico das canções é o violão e o cello, o que realça ainda mais as nuances de seu vocal. As letras têm uma grande importância neste contexto sonoro.
Em “Ride”, como o tÃtulo descreve, existe um caminhar fÃsico, visitar novos lugares, territórios desconhecidos. Mas a principal viagem é psicológica: buscar os melhores rumos na vida, saber escolher entre a trilha que se bifurca em uma encruzilhada. Qual a rota certa para a felicidade? Isto gera dúvidas: (“eu não sei se tomei caminho certo”) e os enganos podem levar à solidão, regiões desoladas: “acima das planÃcies de terra vermelha os corvos voam”.
Uma leve percussão traz maior dinâmica para “Out in New Mexico”, que continua a história de “Ride”: “eu imaginei uma estrada no Novo México, terra vermelha, montanhas e o céu/ estou assustada com o que irei descobrir/ se eu deixar rolar/ olhar para o meu interior, tenho medo do que vou sentir/ de tornar isto realidade”. A cantora consegue uma façanha, expressar vários sentimentos com uma variação mÃnima no vocal: dramaticidade, melancolia, leveza.
Nem sempre as escolhas levam a algum lugar. Às vezes, são becos sem saÃda ou estradas que terminam bruscamente. Em “Out in a Limb”: “o mundo continua a girar/ não posso enxergar claramente/ não tenho um caminho e nem posso me mover/ tenho construÃdo paredes ao meu redor/ não consigo olhar além delas”. Apesar do tema, a melodia é menos sombria que as anteriores, a voz de Heather está mais suave e o ritmo mais vibrante. Um interessante contraste.
É na faixa “If I Should Die” que se encontra a explicação para o tÃtulo do CD, a fragilidade da existência: “cada momento da vida é como uma flor de jasmim em minhas mãos”. A cantora expõe dois sentimentos distintos: de um lado, as dúvidas e medos que trazem insegurança. Do outro, a importância de evitar que os conflitos existenciais impeçam a superação dos obstáculos.
Mas sempre há uma luz no fim do túnel e a voz de Heather torna-se radiante: é necessário encontrar um sentido para a vida mesmo quando tudo parece difÃcil. “Isto é vazio, sem valor, mas é bonito também/ como uma luz vindo através das sombras” (em “Hollow”). “Estou procurando pela luz para levar as dúvidas embora” (“Looking for the Light”). E de forma inteligente e sutil em “Beautiful Storm”, a tempestade que chega sem avisar com toda sua força e ainda assim dotada de beleza. O fascÃnio pelo brilho dos relâmpagos e a superação do medo que eles impõem.
A música que encerra o CD, “Always Christmas”, é a única que traz uma banda completa e um clima de otimismo e conquista. É como encontrar a motivação para viver, embora a busca por melhores dias continue: “os sinos estão tocando/ em minha mente, estou cantando/ mas ainda não posso começar a sentir a luz à qual estou destinada a viver”.
Apreciar a música de Heather Nova é sempre um desafio: surpreender o ouvinte, escapar do lugar-comum.  A sensação é gratificante.
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