Fernanda Takai e Pato Fu: Passado, Presente e Futuro

Ciro Hiruma

Nelson Motta definiu no encarte: “a música é um estado de espírito”, citando Ronaldo Bôscoli. É exatamente a idéia que os produtores Motta e John Ulhoa quiseram passar no CD Onde Brilhem seus Olhos, de Fernanda Takai. A proposta foi partir do repertório de um ícone da bossa nova, Nara Leão, mas acrescentar uma musicalidade inovadora que se adaptasse ao estilo e personalidade de Takai e da sonoridade de hoje.

“Diz que eu fui por aí” é a voz de Fernanda complementada pelos toques inteligentes da guitarra de John, que aparece nos momentos adequados. Uma simplicidade atraente. “Lindonéia” caminha no sentido oposto, traz versos complexos, de difícil interpretação, de Caetano e Gil: “despedaçados, atropelados, cachorros nas ruas, policiais vigiando o sol batendo nas frutas, sangrando”. E os versos saem fluentemente através da voz da cantora. Os arranjos eletrônicos dão um toque especial para a composição.

Em “Luz Negra”, os teclados de Lulu Camargo recriam um clima intimista e triste da letra deste clássico da música brasileira. O contraponto desta música está exatamente na próxima, “Debaixo dos caracóis de seus cabelos”, de Roberto e Erasmo Carlos, percussão programada dinâmica e entusiamo de sobra que tornam a música um dos destaques do CD. Aliás, esta composição foi um grande momento do show de Fernanda na Virada Cultural, em São Paulo.

A guitarra do convidado especial Roberto Menescal marca “Insensatez”, uma reverência à obra de Tom Jobim e Vinícius de Morais. Seja o Céu seria um típico baião nordestino não fosse a metamorfose eletrônica: os sintetizadores estão aí para inovar e transpor a música para o século 21. “Odeon” e seu clima faceiro, praticamente um charleston, ganhou mais um ponto para ao ecletismo do CD.

“Canta Maria”, de Ary Barroso, dominada pelos teclados de Camargo, revela sua belíssima letra: “plantei um pé de alecrim para perfumar a nossa linda casinha tão simplezinha que dá gosto olhar”.

Em clima festivo, Fernanda Takai encerra com “Ta Hi, em fiz tudo pra você gostar de mim”, final perfeito para um CD irretocável.

Os olhos brilham com as surpresas para o futuro.

E o Pato Fu, como vai? Muito bem.

Uma das principais qualidades da banda foi jamais se acomodar em fórmulas pré-estabelecidas, cada novo lançamento trazia, além da irreverência, uma criatividade inata e um desejo de experimentar.

Daqui pro futuro apresenta uma capa curiosa: um enorme monstro mecânico que nada mais é do que um toca discos de vinil. Aliás, neste exato momento em que o vinil começa a ser objeto de revival, em tiragens limitadas, é curioso saber o que o futuro nos espera: do long playing ao CD, passando pelo MP3 player.

E a música? O Pato Fu amadureceu. E como. Trata-se de um CD mais tranqüilo, em que a banda aprimorou seu senso de melodia e técnica. É um trabalho para se descobrir detalhes, que se revelam sutis em cada música. “30.000 pés”, a faixa que abre o CD, é uma balada que lembra a era psicodélica, influência dos Beatles no final dos anos 1960.

É curioso ouvir “Mamã Papá”, uma faixa com tema totalmente familiar em que o título se torna uma levada rítmica. Aliás, esta é a idéia da composição, que traz no suingue do baixista Ricardo Koctus e na bateria de Xande Tamietti o complemento perfeito.

“Espero” é uma música inusitada: escuta-se o relógio, que indica a questão do tempo do título, arranjo de cordas e efeitos de sintetizador que pontuam a música. Algo saudosista e algo inovador, com o vocal de Fernanda preciso e sutil.

Regravar um grande clássico é uma missão difícil. Manter a mesma linha sonora e repetir o óbvio ou partir para uma criação inusitada? Em “Cities in Dust”, de Siouxsie and the Banshees, o Pato Fu optou, lógico, pela segunda opção. A base eletrônica onde desfila a guitarra de John Ulhoa, que segue uma linha pessoal, distante da versão original.

“Woo!” É o momento techno. Baixo e bateria mais a programação eletrônica de Lulu Camargo acentuam um clima ligeiro, dançante. Sem dúvida, tem cara de hit.

Mudando completamente o rumo, “Vagalume” é a música mais intimista, simplicidade, o violão de John e a voz de Takai.

“1.000 Guilhotinas” nos conduz para a França, pelo século XV, afinal, o próprio título já é irreverente: o médico Joseph-Ignace Guillotin propôs este método como o mais humano para “ceifar” as vidas humanas.

Embora Fernanda Takai tenha declarado que o Pato Fu ainda é prioridade em sua carreira, a verdade é que o seu CD solo complementa o do Pato Fu, e vice-versa. Quem sai ganhando é o público.

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