Black Country Communion: seguir a linha do tempo

CD REVIEW

Ciro Hiruma

“Supergrupo”. Quantas vezes esta palavra não foi usada em vão? Músicos famosos, com passagem em grandes bandas, decidem criar uma nova formação a partir de um currículo notável. E muitas vezes este projeto não funciona. 

Black Country Communion é a mais recente opção na cena musical. No vocal e baixo Glenn Hughes (ex-Deep Purple), Jason Bonham na bateria (filho de John, do Led Zeppelin), Joe Bonamassa na guitarra (tocou com Gregg Allman, Joe Cocker, Derek Trucks, Joe Lynn Turner, Ted Nugent, Steve Winwood) e Derek Sherinian nos teclados (Dream Theater, Planet X).

Desta vez é para valer, a banda merece o consagrado título. Não por causa do passado dos integrantes, e sim pela qualidade da música que fazem no presente. E aí está o primeiro álbum da turma, chamado simplesmente “Black Country”.

O produtor Kevin Shirley (Dream Theater, Aerosmith, Journey, Black Crowes) teve um papel importante no sucesso da banda. Sua concepção sonora é próxima da ideia contida no mais recente álbum do Iron Maiden, The Final Frontier: evocar o som dos anos 1970 e trazê-lo para a atualidade.

O CD abre com a faixa-título, baixo pesado e pulsante que une forças com a bateria rápida e riffs de guitarra demolidores. Não há tempo nem para respirar, tudo acontece muito rápido com uma energia explosiva. A exceção é um breve trecho blues, típico do estilo de Hughes.

“One Last Soul” é uma daquelas músicas com refrão envolvente, timing exato, poderia ser a música de trabalho da banda. Bonamassa dispara um solo vibrante enquanto a banda mantém uma base sólida, coesa.

Tem momentos em que a influência do Deep Purple é evidente: “The Great Divide” é o conhecido toque funk/soul que aparece em álbuns como Stormbringer e Come Taste the Band. Sherinian traz o som do órgão Hammond e Joe faz um solo digno de Ritchie Blackmore. Bonham, ao contrário, concede um andamento atual à música. E tudo funciona muito bem!

“Down Again” é mais uma herança do Purple. Lembra momentos como “Mistreated”, “Love Child”, “Lady Luck”. A diferença é que no meio da música baixa o espírito do Led Zeppelin e os teclados recordam o épico “Kashmir”, referências aos sons do Oriente Médio.

Uma surpresa é “Beggarman”. Bonamassa usa o pedal wah-wah e faz uma citação direta a Jimi Hendrix. A seguir um hard rock agressivo e veloz toma conta do pedaço e o guitarrista usa e abusa dos riffs e solos. Uma composição muito agradável de ouvir.

Black Country Communion (Divulgação - foto: Marty Temme)

Black Country Communion (Divulgação - foto: Marty Temme)

A introdução sinfônica faz a diferença em “Song of Yesterday”, uma balada que alterna trechos calmos e tensos. Apenas um “descanso” para o que vem a seguir. “No Time” é atemporal, reúne hard anos 1970 e uma levada rítmica das bandas de rock dos anos 1990, até elementos do grunge. Se a produção fosse de Phil Spector, seria fácil dizer que se trata de uma “muralha de som”, tal a densidade e potência da composição.

“Medusa” é uma regravação da ex-banda de Hughes, Trapeze, de 1970. A introdução recorda o registro original, mas a sequência traz um som mais pesado, arrastado, que lembra o Black Sabbath (onde Glenn atuou como vocalista).

“The Revolution in Me” tem uma vigorosa entrada de órgão ao estilo Jon Lord. É inevitável a comparação com o Deep Purple (de novo). A seção final é a deixa para Bonamassa e Bonham mostrarem seu talento e entrosamento.

O tempero soul/funk predomina em “Stand (At the Burning Tree)”, é a medida exata entre o passado e o presente. Recorda até mesmo a era Derek Sherinian no Dream Theater (“Lines in the Sand”, “Just Let me Breath”).

“Sista Jane” é um ótimo pop soul que poderia até contar com um dueto de Joss Stone e se tornar hit (basta ouvi-la ao lado de Jeff Beck em “People Get Ready”). Bonham capricha na levada e marca mais um ponto para a banda.

O CD encerra com categoria: “Too Late for the Sun”, um hard rock impregnado de blues, composição de toda a banda mais Kevin Shirley. E o tão esperado solo de Sherinian.

Detalhe positivo: Glenn Hughes continua em ótima forma e evita os excessos vocais que pontuam sua carreira. Independente de ser um excelente cantor, mérito que ninguém tira.

E uma dica para o próximo CD: aumentar a presença de Derek Sherinian, liberá-lo para mais solos e como compositor. Afinal, a autoria das músicas ainda está muito centrada na dupla Hughes-Bonamassa. O grupo só teria a ganhar em ecletismo sonoro.

O resultado de “Black Country” realmente empolga. É bom ouvir estes músicos trazendo de volta o melhor do passado sem perder de vista o presente.

Link:

Site oficial do Black Country Communion

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2 Responses to “Black Country Communion: seguir a linha do tempo”

  1. Mônica S. Gallo on outubro 12th, 2010 at 11:24

    Adorei a matéria, Ciro. Parabéns! Para quem gosta de música como eu, é de deixar com água na boca. Sem contar que a soma dos elementos, em todos os sentidos, é deliciosa e indiscutivelmente provocante!

  2. claudio do frimisa on outubro 31st, 2010 at 11:04

    excelente materia, concordo em tudo nessa que e a melhor banda de rock n roll da atualidade. PARABENS!

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