Alanis Morissette: Flavors on Entanglement

Alanis FlavorsEntre a maturidade e as dúvidas

Ciro Hiruma

Foram quatro longos anos de espera desde So Called Chaos. Mas basta ouvir Flavors of Entanglement, o lançamento de Alanis Morissette que chega agora às lojas, e descobrir o motivo desta pausa.

A cantora sentiu a chegada maturidade ao passar da barreira dos 30 anos. E se esta postura lhe rendeu uma certa estabilidade e personalidade, mas também trouxe dúvidas: ela se questiona sobre os rumos de sua vida, erros e acertos e coloca todas as impressões sob a forma de música.

Esta expressão musical encontrou no produtor Guy Sigsworth (Madonna, Björk) o profissional capaz de produzir um trabalho especial. E assim aconteceu: quem pensou em encontrar sintetizadores, loops e levadas techno acertou. Mas Sigsworth foi inteligente para não desvirtuar o estilo pessoal de Alanis. Em meio a todos esses recursos eletrônicos, surgem o trio guitarra, baixo e bateria em porções explosivas. Adrenalina mais nitroglicerina.

O resultado: um dos melhores CDs do ano.

Para um trabalho que tende a ser intimista, a faixa de abertura é um tema universal e apocalíptico: “Citizens of the Planet”. Sonoridades do Oriente Médio não são uma novidade nos trabalhos de Alanis, mas aqui aparecem em primeiro plano, via percussão e sutis complementos eletrônicos. A seguir, um ápice pesado acompanha o refrão. Uma referência básica? O álbum No Quarter: Unledded, de Jimmy Page e Robert Plant.

Cita a cantora: “sou uma cidadã do planeta, meu presidente é Kwan Yin (uma divindade chinesa, deusa da compaixão)/ minha fronteira está em um aeroplano/ minhas prisões: casas de reabilitação”.

“Underneath” é certamente um hit, que aparenta ser um pop agradável e aparentemente convencional, até o momento em que a guitarra e os sintetizadores entram em sintonia, equilíbrio, perfeito. Alanis mostra como a sua técnica vocal evoluiu com o passar do tempo.

Aliás, se o assunto é vocal, a balada “Not as We” é uma tradução exata de sua sutileza e técnica, acompanhada basicamente pelo piano. Em “Incomplete”, a linha acústica, via violão, domina o início, para gradualmente crescer em peso. E aqui Alanis constata: “Tenho batalhado toda a minha vida/ Com urgência para alcançar a linha de chegada/ E tenho perdido o prazer de todo este tempo/Ser sempre incompleta”.

Um clima obscuro marca a abertura de “Moratorium”, que prossegue com um clima leve, cercado por sintetizadores. “Eu declaro moratória nos relacionamentos/ Declaro um repouso nos esforços de contato/Eu preciso de um descanso no sabor dos envolvimentos/ Declaro uma pausa em tempo integral de todos os compromissos”. Talvez esta seja a explicação para o afastamento da vocalista da cena musical e da mídia. Foi uma reclusão voluntária para repensar sua vida.

A habilidade de Guy Sigsworth se destaca na produção de “Straight Jacket” e “Giggling Again for no Reason?”, que apresentam um tom mais techno e dançante, o domínio da percussão e efeitos eletrônicos. É nestes momentos que o produtor relembra sua parceria com Madonna no CD Music.

A ironia de “In Praise of the Vulnerable Man” coloca em jogo todos os clichês do machismo do chamado “homem de verdade”, uma crítica divertida e ao mesmo tempo incisiva. Por outro lado, a vocalista mostra sua própria vulnerabilidade em “Torch”, uma sensível balada: “Estas são as coisas que eu perdi/ Estes não são tempos para fraquezas do coração/ São dias de crueldade e desespero/ Nunca imaginei que eu me renderia por você assim”.

Letras inteligentes, músicas ótimas e uma produção impecável. Valeu a pena esperar o retorno de Alanis.

Vídeo: Underneath - Official Version

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