Keith Emerson – Inferno

O ELO PERDIDO DA MÚSICA

Ciro Hiruma

O final dos anos 1970 foi um período difícil para as bandas de rock progressivo. A ascensão de novas modalidades sonoras, como a disco music, o punk rock e posteriormente a new wave resultou em uma grande mudança no comportamento do público e na cena musical.

Uma das bandas que sentiu este impacto foi o Emerson Lake and Palmer, ou simplesmente ELP. Grupo fundamental no movimento progressivo, formado por músicos ousados, inovadores, de imensa capacidade técnica: Keith Emerson (teclados), Greg Lake (vocal, baixo) e Carl Palmer (bateria).

Um ponto polêmico: boa parte dos fãs considera que o ápice da banda aconteceu com o lançamento do álbum Brain Salad Surgery (1973). Mas o auge da maturidade foi conquistado em Works Vol. 1 (1977).  Embora a ênfase deste trabalho estivesse nas atuações individuais de cada músico, bastaram duas faixas, “Fanfare for the Common Man” e “Pirates” para que a banda mostrasse todo o seu potencial e equilíbrio coletivo.

Problemas financeiros durante a turnê que se seguiu ao lançamento do álbum motivaram a dispensa da orquestra que os acompanhava. Trabalhos mal sucedidos em termos comerciais e de crítica, Works Vol. 2 e Love Beach, desencadearam conflitos pessoais que levaram a dissolução da banda. Enquanto Greg Lake investiu na carreira solo, Carl Palmer criou o grupo PM. E Keith Emerson partiu para o ambicioso projeto de compor trilhas sonoras.

O primeiro convite veio do diretor italiano Dario Argento, um especialista na área do terror. Embora ele mantivesse uma sólida parceria com a banda Goblin, autora da maioria das trilhas sonoras, o diretor decidiu que queria algo diferente para sua próxima produção. Foi assim que surgiu Inferno.

O filme, que recebeu no Brasil o nome Mansão do Inferno, foi dirigido e escrito por Argento, Conta a história de uma poetisa, Rose Elliot, que descobre um livro chamado “As Três Mães”, que controlam a essência do mal em todo o mundo. O ponto central é a história de uma dessas criaturas, Matter Tenebrarum, que supostamente habita o prédio onde Rose reside.

A trama confusa e complexa faz parte de uma trilogia (Suspiria, Inferno e La Terza Madre) que se tornou uma obra cult entre os admiradores do gênero.

De volta à trilha sonora: Emerson manteve o mesmo conceito da obra que criou em Works Vol. 1, o “Piano Concerto”, uma suíte sinfônica dividida em três segmentos. Até o mesmo condutor da orquestra, Godfrey Salmon, foi convidado.

Era a situação ideal para o tecladista demonstrar seu lado erudito, como acontece na abertura “Inferno (Main Title)” e “Roses´s Descent into the Cellar”, temas sombrios e ao mesmo tempo belos ao piano. A excelente orquestra acrescenta vigorosos momentos de tensão.

Ao contrário das trilhas sonoras que repetem sempre a mesma variação do tema central, Inferno consegue ser original e eclética. “The Library” é uma influência direta de Johann Sebastian Bach, um dos ídolos de Emerson. Órgão de catedral e um estilo solene e grandioso.

“Bookends Delight” é a composição ideal para a cena do chuveiro do filme Psicose.  Sua estrutura agressiva e dinâmica poderia substituir com perfeição a música original de Bernard Herrmann.

Um caso a parte é “Matter Tenebrarum”: sintetizadores e um coral de vozes masculinas e femininas criam o momento mais tétrico da trilha, o efeito é assustador e evoca os cantos gregorianos. E “Inferno: Finale” é puro tema bombástico da orquestra, metais em plena potência.   

Keith Emerson (foto: divulgação)

Keith Emerson (foto: divulgação)

Duas músicas foram criadas no melhor estilo Emerson Lake and Palmer, seguindo a mesma estrutura do trio: sintetizadores, baixo e bateria. “Taxi Ride” foi um pedido do direto Argento para que Emerson acrescentasse o trecho da obra “Nabucco – Va, pensiero, sull’ali dorate” de Giuseppe Verdi na trilha. Ficou completamente diferente da obra original e surpreendeu o diretor.

Na mesma linha, “Cigarettes, Ices, etc” é uma música totalmente ELP, lembra muito a fase dos álbuns Tarkus (1971) e Trilogy (1972).

Em 2000, a gravadora Cinevox lançou uma versão remasterizada do CD com uma faixa bônus: “Inferno (Outtakes Suite)”. Tem dez minutos, abre com a mesma sequência de “Cigarettes” e parte para um material inédito curioso e diferente do restante da trilha sonora.

Na época do lançamento do filme, a trilha foi aceita com reservas pela crítica musical e o público. Alguns salientaram que Dario Argento deveria ter continuado a trabalhar com o Goblin, enquanto outros definiram a orquestração e composição como “datada”. Seria o mesmo que considerar “Carmina Burana – O Fortuna” ultrapassada para o filme A Profecia. Como se a escolha não tivesse sido perfeita.

O Emerson Lake and Palmer retornou à ativa nos anos 1990, encerrou novamente a carreira e no dia 25 deste mês tocou no High Voltage Festival, em Londres. Entre voltas e reviravoltas (as bandas Emerson Lake and Powell e Three), muitos não se lembram da passagem de Keith Emerson pelo cinema. Daí a importância de recordar a trilha sonora de Inferno.

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Keith Emerson

Emerson Lake and Palmer

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