Nhocuné Soul

Divulgação (foto: Walter Antunes)
FAREJADORES
Jean Martins e Maurício Verderame
Nesta primeira edição da coluna Farejadores, fomos conversar com a banda Nhocuné Soul num sábado à noite, no CDM (Centro Desportivo Municipal) Patriarca, na periferia da Zona Leste de São Paulo. Neste espaço, onde artes cênicas, poesia e música se unem em estado de combustão criativa, será encenada, a partir do dia 19 de setembro, a ópera periférica (gênero criado pelo próprio grupo que está ensaiando a peça) A Saga do Menino Diamante, para a qual a banda está fazendo a trilha sonora e cujo roteiro nasceu de um sonho do vocalista e violonista Renato Gama, principal compositor do grupo. Pudemos então, a convite deles, assistir ao ensaio do primeiro ato da peça depois da entrevista em que a banda fala sobre o seu trabalho. Participaram do papo, além de Renato Gama, seu irmão Ronaldo (baixista), Juninho Batucada (percussionista), Jhony Guima (percussionista) e Luiz Couto (guitarrista).
Bom, para começar, eu queria que vocês falassem sobre o espetáculo que estão preparando com o pessoal aqui do CDM (Centro Desportivo Municipal) Patriarca, a ópera periférica A Saga do Menino Diamante.
Renato: Há uns dois anos, eu conversei com meu amigo Luciano sobre um sonho que eu tive com o tema da peça. E ele é de um grupo chamado Dolores Boca Aberta Mecatrônica de Artes e gostou da ideia. Depois de uma longa conversa, acabou escrevendo o projeto sobre a Saga do Menino Diamante para a Lei de Fomento ao Teatro e rolou, foi aprovado. Então, ele juntou o grupo Dolores, o Nhocuné Soul para a parte musical, mas no grupo ainda tem outros músicos que foram convidados, como o Nandão, um artista aqui da região. Foi tudo escrito coletivamente e também tem algumas músicas do nosso disco Amando e Sambando e do primeiro disco Samba Rap Periférico.
Luiz: Além de composições dos atores e atrizes, que interpretam suas próprias músicas, tem sambas-enredo de parceiros aqui da rapaziada também, então tem uma criação musical coletiva interessante no espetáculo.
A peça tem uma duração de oito horas, é isso?
Renato: Começa às 10h da noite. O primeiro ato é de 1h30, tem mais dois atos e depois é festa também.
Ronaldo: A maior parte da peça é a festa, balada mesmo, que a gente não ainda não sabe muito bem o que vai ser…
Luiz: Está previsto seis horas de espetáculo em três atos, o primeiro e o segundo dramáticos, com atuação, e o terceiro, a festa. Em relação a isso, estava conversando com o Luciano, diretor da peça, e ele estava falando que o poder público vem cerceando as festas no Brasil. Um momento de manifestação cultural, de união entre as pessoas, de questionamento que está meio que suplantado e o Luciano estava me alertando.
Renato: A gente trabalha numa favela que é um dos temas da peça, que é a favela do Real Parque, que é no caminho do Centro para o estádio do Morumbi, e a polícia entra na favela e proíbe festa porque a música, que é funk carioca, é chula. Mas o samba, cento e poucos anos atrás, tinha a mesma característica, as mulheres também mexiam a bunda…
Luiz: Festa folclórica também precisa de alvará, autorização, uma série de instrumentos para coibir. Então, a proposta da peça é fazer um resgate disso. Uma grande festa no final do espetáculo para reunir as pessoas em volta da arte, da música, da poesia.
E quando está previsto para acontecer a encenação?
Renato: 19 de setembro será a estréia.
E vocês estão prevendo uma temporada?
Renato: Até novembro, todos os sábados, isto se não chover.
É ao ar livre, né?
Renato: É a ideia do churrasco na laje. Só acontece quando não chove. (risos)
Quantas pessoas estão envolvidas?
Luiz: Mais de 30 pessoas. Não necessariamente artistas. O espetáculo é um experimento operístico periférico. Não é padrão tradicional de uma ópera, academicamente falando, mas uma releitura.
Renato: Estamos operando a arte. (risos)
Luiz: Para a gente esta experiência é totalmente nova. Apesar do Renato já ter feito trilhas para outros espetáculos, esta é a primeira vez que nós estamos atuando como um grupo.
(O percussionista Jhony Guima, simpatia pura, chega, cumprimenta a todos e se achega à conversa)
Só está faltando o Tico (baterista do Nhocuné). Ele participa?
Ronaldo: O Tico não está participando deste espetáculo por falta de agenda, por que ele trabalha como cenógrafo também, e no segundo semestre é quando aparece mais trabalho. Então, numa conversa entre o grupo decidimos que era melhor, ao invés de ele vir em alguns espetáculos e outros não, chamar outro baterista, o Lilo, que é um músico da região.
Luiz: Ele é de uma geração mais nova que era fã do Nhocuné, o Renato foi professor de produção musical dele, e estamos trazendo aí para compor o time.
Já que estamos falando dos músicos, eu queria perguntar sobre o DJ Marciano, que fazia parte integral da sonoridade de vocês; no primeiro disco, inclusive, a presença dele é muito marcante. No segundo, ele participou, mas já não como integrante e sim, como convidado. O que aconteceu?
Ronaldo: Quando gravamos, ele ainda era integrante.
Luiz: É o seguinte, tem uma batalha na vida de todo músico que, no Brasil, às vezes você não consegue ter um retorno financeiro para pagar suas contas e tem que correr para outra direção, deixando o trabalho artístico de lado. Nós tivemos uma conversa, foi difícil porque o Marciano estava desde o embrião, antes mesmo de chamar Nhocuné, mas decidimos que ele não iria fazer mais parte da banda. Mas sempre que pode a gente convida ele. É um membro honorário. Está todo mundo torcendo pelo retorno dele.
Queria que vocês falassem um pouco sobre o início da banda. Como foi formado o Nhocuné?
Renato: Eu fui num show da Fernanda Abreu no SESC Belenzinho em 1996. Assisti o show e fiquei pasmo, que coisa louca ela estava fazendo de trazer o samba com o rock mais explícito, tinha sambistas e roqueiros na banda.
Eu já queria montar uma banda, já tocava, aí montei uma banda chamada Clã com algumas pessoas do colégio, a Bia cantava, tinha a Cléo também, uma galera que tinha esta coisa com a música, não eram músicos profissionais. Montamos a banda e quando olhei para a galera, não tinha guitarrista, foi muito engraçado. Aí fui chamar um menino aqui da comunidade que tocava. Só que quando fui convidar, ele me viu, negão, e não aceitou. Foi meio: “Porra, mas esse negão vai me convidar, eu sou roqueiro!” (risos)
Mas ele chegou a falar alguma coisa neste sentido?
Renato: Não lembro se ele falou, mas tinha uma coisa de quando a gente chegava para tocar, as pessoas falavam: “Ah, mas aqui a gente não toca samba, não toca rap…” (risos)
Aí, estava terminando o 3º colegial e brinquei que, quando entrasse na faculdade, eu ia achar um guitarrista lá. Entrei no Mackenzie e um dia estava tocando lá no diretório acadêmico, e tinha um brother, o João, que fazia Psicologia, eu fazia Letras, aí vi o cara tocando, mas era muito pesado ainda e tal…e eu já compunha. Acho que compunha até mais do que hoje. Era aquela coisa meio que primeira vez, que você não quer parar, sabe?
Aí eu conheci o Luiz. Tocamos uma, duas, três vezes e aí falei: “Quer tocar? Só que é na Zona Leste”. Ele falou: “Quero”. E tinha um batera que ele trouxe, o Cris.
Luiz: Tinha um baterista aqui da área, mas na facu tinha um cara que ia segurar melhor a bronca. Indiquei, a galera comprou a ideia… e foi muito bacana.
Renato: Aí alugamos um sobrado.
Luiz: Na verdade, foi um dos grandes atrativos, quando o Renato me convidou.
Juninho: Tinha uma outra banda, Vestígios da Noite, depois virou Catarse, que o vocalista e guitarrista morava em uma casa, aí a casa do lado ficou vaga. Ele alugou e, na época, a gente falou: “Vamos dividir a casa”. Sábado e domingo ficava todo mundo internado lá, escutando Bob Dylan, a gente dormia, fazia macarrão. Foi muito foda, muito importante esta fase.
Muito intenso isto! Quanto tempo durou?
Luiz: Foi nosso tempinho de Novos Baianos, neotropicalista. Era um sobrado. Na verdade, as bandas alugavam a casa. Era um espaço livre, a gente ficava por lá, fazia fogueira no quintal à noite, ficava tomando vinho, rolando um som. Foi o embrião desta irmandade que temos até hoje. Era uma coisa maluca por que tinha dez pessoas na banda. Tínhamos 3 backing vocals; Renato, no violão e voz; eu, na guitarra e voz; Ronaldo, baixo; Junior, na percussão; Cris, na batera, tinha um gaitista, um pianista clássico, que era do Mackenzie também. Tinha quatro pessoas da faculdade e seis daqui do núcleo da comunidade.
O Junior e o Jhony ainda não faziam parte da banda?
Luiz: O Junior sim.
Jhony: Eu cheguei mais ou menos em 2002.
Luiz: Na época, o nome da banda era Clã. Era uma época boa, de muita liberdade de criação. Eu cheguei muito influenciado pelo rock. Foi até um choque, por que eu ligava a guitarra na distorção o ensaio inteiro, a orelha do Ronaldo doía um pouquinho. (risos)
Mas, ao longo do tempo, fomos trocando informações. Aprendi muito com eles, foi um período bem rico. Então descobrimos que tinha uma banda que se chamava Clã também. Não dava para continuar com o nome. Fizemos uma reunião no Centro Cultural Vergueiro e conversando, o primeiro nome que surgiu foi Olga.
Renato: Eu tinha lido o romance do Fernando Morais e pirei na história dela. (risos) Depois do filme, o nome teria ficado na moda (mais risos)
Luiz: Aí surgiu Nhocuné Soul. Uma maneira positiva de homenagear a vila aqui e misturando com o soul, que permite um trocadilho com ‘sou’ em português.
Tanto nesta história que vocês estão contando, quanto no som do Amando e Sambando, dá para ver uma ligação muito forte com a comunidade e o que é reforçado com esta questão da ópera, que vocês estão fazendo aqui. Como esta ligação aparece? Você faz um trabalho comunitário, né, Renato?
Renato: Faço, mas não é nessa comunidade, é na favela do Real Parque.
A relação com a comunidade está na ida na padaria de manhã para comprar pão. Não é projeto, não é ONG, é pessoa, relação humana. Esta relação de você nascer, viver, persistir e construir no bairro. Isto acaba vazando nas letras, mas é de viver no lugar mesmo, onde você compra pão, onde você joga bola. Como me tornei músico, você acaba direcionando isto. Tinha um projeto na quadra aqui do CDM que era Estação Futebol Arte, que juntava música e futebol ao mesmo tempo, mas não virou. Então fui trabalhar como educador em outra comunidade, mas a ideia é desenvolver um projeto aqui.
Como vocês definem o som do Nhocuné?
Ronaldo: Não é uma preocupação nossa. O pessoal que geralmente impõe esta preocupação para a gente. O som do Nhocuné simplesmente acontece. Nós já temos um tempo bem razoável de convivência, a gente não precisa saber o que vai tocar, é uma coisa visceral. A gente se comunica musicalmente sem precisar saber se o Luiz vai tocar mais rock’n’roll, mais heavy metal. É desnecessário na hora de tocar e na hora de definir. É lógico que as pessoas querem esta referência. Falamos que é uma mistura de samba. A gente fica divagando e nunca chega numa conclusão satisfatória. (risos)
Renato: Uma vez eu fui tomar um café com o Osvaldinho da Cuíca e com o Seu Nenê da Vila Matilde e fiquei morrendo de vergonha. Perto deles, eu me sentia um dos Dead Kennedys. O que eu vou fazer com estes caras, dois representantes do samba paulista? Aí ficamos lá batendo papo, brincando, cantando algumas músicas, o seu Nenê gosta daquela música Carinhoso do Pixinguinha, aí cantou… enfim, no final, tive que dar uma de tiete, imagina o Robert Johnson aparecer, eu precisava pedir um autógrafo, aí por sinal ele tinha uma foto que era ele e o Osvaldinho, aí ele escreve: Ao meu querido jovem sambista Renato Gama. Então hoje eu posso falar que faço samba também, porque tenho um certificado na minha casa assinado por seu Nenê e Osvaldinho. Isto me credencia a falar que sou sambista. (muitos risos)
Mas é aquela velha história… escutar Monsueto Menezes, saber que Jorge Ben existe, que Itamar Assumpção é foda, Frank Zappa, que o Luiz trouxe e também é muito presente, também é foda, Beatles é demais, Roberto Carlos também é legal, Benito de Paula, então…
Luiz: É difícil definir, mas tem um caminho. O Renato acaba dando um direcionamento, porque a maioria das músicas é dele. Mas sempre teve uma dinâmica do Renato apresentar uma canção no ensaio e a gente naturalmente deixar fluir um arranjo, com um pouquinho de paciência e tal. Na época do Clã, a gente tinha um trabalho bem experimental, beirava a psicodelia, músicas com mudanças de andamento e o Renato tem esta qualidade de agregar porque ele transita entre as referências mais opostas, do samba com um som mais pesado.
No Samba Rap Periférico tem um elemento muito importante que é a entrada do Jhony, que estabilizou muito a banda, ele é um cara que veio com uma bagagem, uma presença de palco fantástica. Foi quando a Nhocuné tomou uma outra dinâmica de palco, fazendo uma linha de frente com o Renato, Jhony e eu. O Jhony é o nosso mais novo-velho elemento, o cara mais brincalhão da banda, que tira uma onda com todo mundo, mas que chegou agregando muito no vocal, no trabalho de percussão junto com o Junior. Isto definiu muito do que foi o Amando e Sambando, um trabalho mais maduro, mais heterogêneo. O Samba Rap era mais paulada, você tem a impressão de um disco ao vivo, o Amando e Sambando já tem um refinamento maior. Então a gente tem uma sonoridade única mesmo, sem querer me vangloriar como membro da banda, mas acho que dentro desta identidade maluca toda tem um certo diferencial no nosso som.
Vocês ainda não falaram do Tico. Eu acho ele um baterista fabuloso.
Luiz: O Tico veio dar uma estabilidade na cadeira de baterista. Ele vestiu a camisa da banda e está com a gente há uns quatro, cinco anos. Estou ansioso para a próxima gravação porque vai ter a presença dele, vamos ver como vai ser.
Como é que ele entrou, que ele chegou na banda?
Renato: Minha mãe é modelista e trabalhava em uma butique, onde a ex-esposa do Tico trabalhava. Só que ele morou um bom tempo atrás num sobrado ao lado da minha madrinha na Vila Nhocuné, mas nesta época a gente não se conhecia. Quando fui procurar um cara para tocar, aí falaram: ele toca com o Edson Cordeiro. Aí, olha o preconceito, eu pensei: o cara não vai querer tocar com a gente. Mas na verdade ele era roadie do Edson Cordeiro. Aí falei para a ex-mulher dele que ia abrir um show da Nação Zumbi e ela comentou que o marido era baterista. Um dia conheci o cara, ele também tinha morado na Vila Nhocuné. Ele estava assim próximo, só que não chegamos a convidar nessa época.
Aí ele veio e tocou, gostamos de cara. Mas antes ele fez um show comigo. Eu tenho um disco solo -- que ele acabou gravando -- e fui convidado para fazer um show no Sesc Pompéia, com o Pedro Osmar e o Loop B. Aí chamei ele pra tocar, meio pra ver como era e o cara tocou muito. Aí convidei pro Nhocuné.
Luiz: A gente não tem registro dele ainda. Mas na nova safra de músicas, na nossa próxima gravação vai dar para sentir mais. E eu aposto muito no nosso trabalho, principalmente, por isso. Pelo fato de a gente estar com uma banda estável agora há 4 anos. Coisa que para a gente era meio difícil manter o time, por conta de agenda, de ter um batera que vista a camisa e a qualidade que a gente precisava.
Falando do Amando e Sambando, como está sendo a recepção deste disco? Eu vi que vocês estão fazendo muito show no SESI, por exemplo.
Luiz: A gente foi convidado pelo SESI através de um edital que houve para fazer apresentações no interior de São Paulo. Tocamos em cinco cidades no primeiro semestre. Era um projeto muito interessante (e o Renato sempre levantou isso durante os shows) através do qual o SESI está tentando criar um público e apostou em artistas de qualidade da nova safra para fazer shows fora da cidade de São Paulo. Fomos para Piracicaba, Birigui, Santo André, Osasco e Mauá.
E foi muito bacana, surpreendente. Em Piracicaba, pensamos que iríamos tocar para meia dúzia e o teatro estava lotado, o pessoal curtiu, a criançada do bairro foi no camarim conversar com a gente. Muito gostoso ter esta experiência.
Ronaldo: O interessante foi isto que, no primeiro show em Piracicaba, o público era quase infantil e a gente falou: e agora? Aí rolou, a molecadinha gostou. Aí no seguinte foi Osasco, com um público adolescente. Achamos que teríamos que tocar funk carioca, mas também rolou. Depois em Mauá eram senhoras e falei: agora a gente tomou na tarraqueta. Mas não, elas estavam lá, com o dedinho para cima… (risos)
Luiz: Assim foi nosso primeiro semestre e o que levou a gente a isto foi o Amando e Sambando. E a gente está colocando as músicas no Myspace, às vezes dos lugares mais inusitados vem o feedback, dia desses uma artista de Londres entrou lá para elogiar o nosso som. Isto é muito bacana da internet. A gente está trabalhando este disco, ainda não conseguimos apresentar todas as canções do disco em show.
Renato: Por que são 17 músicas também.
É um trabalho longo… caudaloso.
Luiz: O disco teve um processo longo. O Nhocuné sempre teve vocais femininos e este disco foi todo planejado para ser feito com uma cantora, mas no processo de gravação, ela deixou a banda e aí foi um desafio para nós realizarmos este disco numa nova proposta e isto não é uma coisa constante na sonoridade do Nhocuné porque foi um momento em que a gente teve que assumir todos os vocais. O Renato coloca muitos personagens femininos, então a gente resolveu isto convidando algumas cantoras que participaram do nosso disco que são a Neuza Pinheiro, Joana Flor, a Tulipa Ruiz, Ully Costa e a Marina Guima, que é a filha do Jhony, que quando gravou o disco tinha…
Jhony: Ela estava com 11 para 12 anos.
Ronaldo: Com voz de criança ainda…
Luiz: Uma música que fala sobre referência familiar, que o Jhony cantava e a filha dele fazia um dueto bacana.
E nisso a gente cresceu muito como banda, porque olhamos um pro outro e falamos: é com a gente, vamos pular do barco ou matar no peito. Aí a gente matou no peito e estamos aí hoje. E teve uma reação muito bacana, por que sempre tem aquele questionamento, “ah, mas cadê a Bia e a Cintia, duas cantoras ao vivo e tal?” Então é sempre um desafio para a gente resolver isto.
Renato: Legal sobre o disco é que a pessoa que escuta de primeira fala: “Nossa aquela música é maravilhosa”. Aí depois de um tempo, o meu amigo Jesus, ouviu e falou: “Esta música Filho de Vera e Nega Rosa é algo genial”. Passa muito tempo ele me liga e fala: “Cara estou ouvindo Rael aqui. Que letra, entendi tudo. Aí depois de mais um tempo: “Nossa, Renato, tem uma música que chama Bem… cara, eu tava sem grana…”
Então é um disco que demora algumas canções.
Eu tive a mesma experiência com este disco… (risos)
A primeira, que é Filho de Vera, é uma música que impacta muito, por que tem uma sonoridade bem diferente, me lembrou um pouco as coisas que o Itamar fazia.
Ronaldo: É uma das nossas influências.
Você vai ouvindo o disco e ele vai decantando.
Renato: E depois qual foi a sua segunda, depois de Filho de Vera teve alguma outra?
Faz Que Nada. Para mim, foram as músicas mais imediatas. Aí você vai ouvindo as outras, Rael é muito legal, a última que eu não lembro o nome…
Renato: Vou de Samba.
É um disco grande, são 17 músicas, e não é um disco superficial, tem letra, tem uma sonoridade trabalhada. Você falou que o Itamar é uma influência grande, você tem uma história com o Itamar que eu vi você contar em um show. Como que é esta história, você foi procurar o homem na casa dele?
Renato: Mudou minha vida esta coisa de ouvir Itamar, eu nunca falei sobre isso… eu fui no TUCA num show dele. Jards Macalé, Miriam Maria e Itamar Assumpção. Eu tinha acabado de montar uma banda chamada N Grão com um cara que tinha me mostrado um disco do Rush, que eu achava que era só Tom Sawyer, aquela música do… como chama?
Do Macgyver?
Renato: Isto. Pra mim era só aquilo, mas o que ele me mostrou parecia com Led Zeppelin, aí comecei a discutir, aquela coisa toda nova. Aí um dia abri o jornal e estava a música chamada Benedito João dos Santos Silva Beleléu, que o Branca Di Neve tocava nos bailes aqui da região, que era da Black & White, Chic Show, e rolava essa música como samba rock. E vi que o compositor era o Itamar Assumpção. Depois vi na revistinha da Folha que ele ia fazer um show no TUCA. Fui no show e nunca vi nada parecido, nada igual, fiquei emocionado, parecia uma coisa tão próxima, mas tão elaborada. Ele falava do mesmo jeito que meu vizinho fala, que meu tio fala, a mesma gíria, mesmo jeito… fiquei louco, comecei a ir em show dele.
Um dia eu e o Juninho estávamos num show dele e perguntamos para a produtora onde ele morava. Ela falou: Na Vila Matilde. Desce do metrô, sobe e você está na casa dele. No dia seguinte, falei pro Juninho, vamos dar um rolê. Fui na casa do cara, bati palma e falei: “Pô, Itamar, beleza? Eu sou o Renato Gama.” E ele (imitando a voz grave do Itamar): “E aí?” Falei: “Então, eu faço música…” E ele: “Então eu vou no ensaio!” Falei: “Pode ir.”
Mas o carro quebrou e não rolou. Tivemos que ligar para desmarcar. Então não tenho esta história para contar do Itamar no ensaio do Nhocuné. Mas aí um dia, o destino, estava tocando numa casa chamada Reversão e uma mulher pirou no show, o nome dela é Sandra e o marido, Marcelo Del Rio, e começamos a nos aproximar muito dessa galera. Ela disse que trabalhava na produção do Itamar e falou: “Ele vai lançar um disco, Pretobrás, na FNAC, vai lá!” Cheguei lá, comprei o CD com os últimos vintão e levei para autografar, ele escreveu assim no CD: Renato és um som nato. Fudeu, né… (risos)
Ele lembrou do seu nome.
Renato: Lembrou. Um dia nos encontramos na casa dessa produtora. Quando vi o negão entrar, pensei, fudeu, o cara tá aí. Começamos a bater papo, então cometi o equívoco de falar que eu era fã. E ele (dando de ombros), “E daí. É só isso?” Acabamos brigando por causa de uma flor que estava na parede, falei que era de um jeito e ele já atravessou, falou que era de outro. Foi uma puta treta e eu não afinava nem ele. (risos)
Aí foi, mas até hoje ele me influencia. Você vê a Neuza Pinheiro cantando com o Luiz na música Lembra da Gente… sabe quando você aprende a escrever com poucos versos, eu aprendi com o Itamar. Lembra da Gente são só oito versos pequenos.
Vocês chegaram na Neuza por causa do Itamar. Como foi este contato com ela?
Renato: Eu pesquisava música no Centro Cultural Vergueiro e lá tem um disco chamado Intercontinental e eu falei pro cara que trabalha lá, eu quero ouvir um disco assim e assado. Aí ele colocou na vitrolinha o Intercontinental, quando chegou numa música chamada Filho de Santa Maria… eu já conhecia a Neuza por isso e ela cantando aquilo eu acho que é único.
Luiz: Na verdade, o cara que foi o maior responsável pela aproximação entre a Neuza e o Nhocuné foi o Fábio Giorgio, pesquisador, que escreveu recentemente um livro sobre o Itamar, Na Boca do Bode, que na verdade é sobre a retaguarda da vanguarda paulista. Ele foi buscar a origem do trabalho da vanguarda do Lira Paulistana em Londrina. E o Fábio sempre falava, “vocês têm que conhecer a Neuza Pinheiro”. E, ao contrário do Renato, eu não tinha essa proximidade com o trabalho do Itamar, ele que me apresentou: “Isto aqui é o Zappa brasileiro”. (Renato emenda lembrando, “era o Sampa Midnight”) Eu falei: “Então quero ouvir, né?” (risos) Lembro deste dia até hoje. Depois ele me levou num show da Neuza. Eu até tive o prazer, junto com o Ronaldo, de participar do lançamento do CD dela, Olodango, no Cidadão do Mundo, em São Caetano.
Renato: Foi um festival de inverno.
Luiz: Foi algo que me impressionou conhecer a Neuza como artista. Ela tem uma voz que é absurda, uma dimensão vocal incrível, soturna, intensa, e eu não imaginava que havia um talento desses, infelizmente não reconhecido como deveria. Aí surgiu o convite, ela cantou em uma das músicas que acho hoje a mais bem resolvida do disco, pessoalmente é a que mais gosto, que é Lembra da Gente. Ela dá aquela dimensão, aí eu vejo que somos iniciantes mesmo, por que quando ela abre a boca, o som da gente muda. Impressionante.
Por que vocês decidiram lançar o disco por um selo próprio, o Carambolô?
Renato: É uma auto-gestão.
Luiz: É uma mudança de paradigma. A gente cresceu com todo mundo querendo fechar um contrato com gravadora e somos de uma geração que percebeu que a realidade era outra, que era possível percorrer um caminho próprio. A gente sabe das interferências que tem no trabalho, este tipo de coisa e a gente sempre optou pelo caminho de ser autêntico.
E dentro disso, o Renato veio com esta proposta do Carambolô, que é uma gíria de jogo de bolinha de gude…
Renato: Carambolô, deixou. Se você errar dá outra chance. Então essa é a outra chance. (risos)
Luiz: É mais um resgate da cultura periférica e a banda tem esta proposta de mostrar o lado criativo, positivo que pode ter a periferia, que é sempre vista como lugar de bandido. Pra mim, foi muito importante conhecer o Renato porque eu vim conhecer uma cidade que não conhecia. Eu vim do Jardim da Glória, ali próximo ao Centro, no Cambuci, e não conhecia esta região. Não imaginava que dava para viajar pela Radial em cima do metrô tanto tempo. E comecei a conviver aqui e me surpreendo até hoje com a galera aqui do CDM, fazendo o que está fazendo, com direcionamento político, com engajamento. Dentro dessa filosofia toda de independência, auto-gestão e autenticidade, surgiu o Carambolô Records.
E a distribuição está sendo feita pela Tratore?
Renato: É interessante esta relação que a Tratore tem com as bandas e selos independentes. Isso proporciona vender o CD do Nhocuné em Manaus, por exemplo.
Tem uma pergunta que a gente faz para todas as bandas quando encerra a entrevista (mesmo porque vocês têm o ensaio pra fazer):
O que é ser banda independente no Brasil?
Luiz: É um desafio no sentido de… como na história de um dos nossos integrantes que teve de escolher entre a segurança de um trabalho das oito às cinco da tarde ou seguir o talento artístico diferenciado que tem. Então isso acaba sendo um desafio, que é o de você se manter, porque é difícil, às vezes falta reconhecimento, principalmente se você não tem, como o pessoal diz, os contatos. Correr por fora assim é difícil e acho que isso só acontece no Nhocuné pela amizade que a gente tem, pela irmandade, pela abertura de todo mundo aqui ter liberdade para se colocar e pelo prazer que é criar junto. Acho que tem uma série de fatores aí que definem o que é ser independente no Brasil, mas com certeza é um desafio.
Renato: Eu penso muito no interior, quando aquele cara que trabalha o dia inteiro -- hoje não acontece com tanta frequência -- ia tocar viola porque a comida demorava pra fazer, porque era na lenha, então ele ficava tocando lá, aí chegava umas pessoas da comunidade e aquele com mais afinidade com a viola tocava, cantava, contava alguns causos… isso é ser independente? Então, eu ainda não entendi o que é independência. Quando eu me lembro desse cara tocando lá depois de uma colheita, fazendo festa, ele é independente, né? Trazendo pra gente, independente do quê, de quê? Eu não sou nem dependente nem independente. Na verdade, eu sou dependente de um monte de coisas e outras coisas dependem do meu olhar. Música a gente vai continuar fazendo, mesmo se formos trabalhar colhendo feijão. Se for esta profissão, legal. Se não for, nós vamos colher feijão e, à tarde, vamos nos reunir e continuar tocando. Essa questão da independência é o nosso fazer artístico, nós somos operários, é o que gostamos de fazer. Se vão pagar a gente por isso (e achamos que é digno de recebermos), aí é uma outra história, mas exercer a função independe.
Uma última coisa são os planos para o futuro. Vocês já estão pensando em lançar um trabalho novo?
Luiz: O workaholic da composição (se referindo ao Renato, rindo) sempre está compondo bastante coisa e é um processo, como eu falei, as coisas aparecerem nos ensaios. Então quando começa a juntar uma safra assim, a gente já pensa. E como foi um período longo da concepção até a finalização do Amando e Sambando, nesse meio tempo já tinham surgido novas músicas. O nosso foco nesse segundo semestre é a peça A Saga do Menino Diamante, esse experimento operístico, que a gente vai começar a realizar aqui a partir de setembro, e aí o plano inicial é no começo do ano que vem…
Renato: Começar o próximo disco.
Luiz: …a gente quer fazer um esquema diferente aí, talvez se isolar em algum lugar, ir para um sítio, fazer uma pré-produção e aí ir lá pra ver o que acontece e tal. Quem sabe no ano que vem já estamos com disco novo. Não pode parar…
Renato: E a peça está influenciando, por que tem muitas parcerias nascendo com integrantes, com músicas que estou fazendo com o Tita Reis, com o Danilo Monteiro, que é um grande poeta daqui, o Luciano Carvalho, diretor da peça…
Luiz: Vale a pena vocês voltarem aqui para conhecer o talento do pessoal. Está sendo muito rico para nós.
Renato: (referindo-se à música de fundo) Isto que está tocando é uma produção do grupo. Esta música foi composta coletivamente por uns 18 artistas. Fizemos juntos, produzimos juntos e gravamos um registro de cinco músicas no CD que está tocando no fundo.
Nhocuné Soul – Amando e Sambando
Com 10 anos de carreira na bagagem, o Nhocuné Soul chega ao seu segundo disco desdobrando o samba em novos esquemas e propondo novas ramificações para o seu som. Após o primeiro trabalho SambaRapPeriférico, mais cru e urgente, a banda se mostra mais madura em Amando e Sambando, composto por 17 músicas repletas de nuances, que se desenham das mais variadas formas a cada audição.
Ao longo do disco, o Nhocuné Soul exibe uma musicalidade orgânica, que pulsa além de definições. A base musical da banda permanece intacta, calcada em uma seção rítmica coesa (em que o baixista Ronaldo Gama se destaca), somada à batida do violão à Jorge Ben e pontuada pela guitarra de Luiz Couto, que traz elementos de rock, funk e psicodelia. Entretanto, os arranjos estão mais elaborados e novos elementos são inseridos.
Destacar apenas algumas faixas não é das tarefas mais fáceis. Mas Filho de Vera abre o CD com a surpreendente melodia angulosa da guitarra e o vocal quase rap de Renato, Caminhando chama a atenção pelo bonito solo de sax barítono, enquanto Menino Moço traz um excelente trabalho do Barbatuques. Outra que se sobressai é Nega Rosa, que começa melancólica com um contrabaixo acústico tocado com arco e termina com um belo solo de guitarra.
Ao mesmo tempo em que a banda faz com que sua estética própria ganhe corpo, não esconde suas referências. Pelo contrário, saúda-as. O vigor de Faz que Nada remete ao Trio Mocotó e revela a excelente interação dos vocais.
Há espaço para experimentações onde o fio condutor leva a Itamar Assumpção, grande influência da banda. Fato que fica mais evidente na participação de Neuza Pinheiro (cantora que integrou a Isca de Polícia, banda de apoio de Itamar), que empresta sua voz soberba num dueto muito bem arranjado com Luiz Couto em Lembra da Gente. Além de Neuza, Tulipa Ruiz (filha de Luiz Chagas, guitarrista da Isca) participa de Sei Lá, que tem um final inusitado. Fábio Giorgio, outro apaixonado pelo trabalho de Itamar, assina o projeto gráfico do CD.
Amando e Sambando traz outras participações de cantoras como Joana Flor, Ully Costa e, em especial, Nina Guima, que canta Samba sem Dor com seu pai Jhony Guima, percussão e voz do Nhocuné. Esta música homenageia mestres sambistas como Cartola, Clementina, Monsueto, e crava: “Meu pai um dia falou/ o que o médico não ensinou/ que um bom samba alivia a dor”.
As letras de Renato Gama, vocalista e violonista, são um capítulo à parte e trazem um olhar apurado em sua poesia, abordando os desafios do cotidiano na periferia, a importância da família e da arte nesse contexto. Um exemplo é Menino Moço que, com um texto curto, soa como uma carta de intenções da banda. “Menino Moço que não consegue trabalhar/ fica em casa pra compor um samba novo”, diz a letra, mostrando que, através da música, a redenção diante da dureza da vida é possível. Cantando sua aldeia, o Nhocuné aspira ao universal.
Serviço e links:
Blogspot: Nhocuné Soul na estrada
A Saga do Menino Diamante - Ópera periférica com trilha sonora ao vivo da banda
Todos os sábados, às 22h00, a partir de 19/09/09, sempre que não chover, até novembro.
CDM Patriarca -- Rua Frederico Brotero nº60
(Próximo metrô Patriarca -- Zona Leste- entre a escola José Bonifácio e o Posto de Saúde)
Vídeo:
Jean Martins, 25, éjornalista, fareja a internet atrás de novidades e os sebos de São Paulo atrás de raridades.
MaurÃcio Verderame, 42, é baixista da banda Mahalab. Adora desenterrar a música rara em que a criatividade supera a mediocridade.
Entre em contato: farejadores@gmail.com

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