Dominic Miller – November

CD REVIEWDominic Miller - November

Ciro Hiruma

O guitarrista argentino Dominic Miller é bem conhecido por seu trabalho ao lado de Sting. A partir do álbum The Soul Cages (1991), o músico tem atuado em praticamente todos os álbuns e turnês do ex-vocalista do Police.

Porém, sua carreira segue muito adiante. Além de ter seis álbuns solos e dois em parcerias com os músicos Neil Stacey e Peter Carter, sua discografia se estende a participações em vários gêneros musicais. Nesta eclética galeria estão nomes de peso como Phil Collins, The Pretenders, Rick Wright, Tina Turner, The Chieftains e Level 42.

Sua formação acadêmica inclui passagens por grandes escolas de músicas: a Berklee College of Music, em Boston, e a Guildhall School of Music, em Londres. Um currículo e tanto, além de uma notável vivência no meio musical.

November é jazz fusion. Tranquilo. Sem notas velozes ou “quebradeira” geral. Em certos momentos, o ouvinte pode até dizer: é new age. Mas esta música aparentemente calma é meticulosamente trabalhada, desde as melodias até as improvisações. É um exercício de precisão. Longe de ser frio ou matemático, é um exercício puramente emocional. Pode parecer um paradoxo, mas são composições complexas em sua simplicidade.

E a banda que o acompanha corresponde aos objetivos que Miller propõe. Nos teclados Mike Lindup (Level 42), Yaron Herman e Jason Rebello (banda de Jeff Beck). Baixistas: Mark King (Level 42) e Lawrence Cottle. Stan Sulzman no sax, Dave Heath na flauta e Ian Thomas na bateria completam o time.

A faixa de abertura, “Solent”, é um exemplo perfeito: a guitarra, em sua leveza, busca notas dosadas na medida exata para formar uma linha melódica envolvente, cativante. O suingue do baixo poderia ser um retrato musical do título da canção, o Estreito de Solent, que separa a Ilha de Wight da Inglaterra. Sonoridades que vão e voltam ao ritmo das ondas, aumentam e diminuem de ritmo conforme a intensidade da correnteza que passa pelo estreito.

Dominic Miller (foto: Paul Cox)

Dominic Miller (Divulgação/foto: Paul Cox)

Já “W3” é uma curiosa fusão de estilos. Miller inicia com riffs mais pesados e solos que lembram Trevor Rabin (ex-Yes). A cozinha rítmica se lança em uma levada funk. Em certo momento, guitarra e teclado fazem um duelo dissonante, como se fosse uma criação da banda de rock progressivo King Crimson.

“Still” seria puro Sting se contasse com a participação do vocalista. É o mesmo conceito do álbum Ten Summoner´s Tales que ambos gravaram em 1993. Evoca especialmente faixas como “It´s Propably Me” e “Fields of Gold”.

Uma mudança brusca em “Gut Feeling”, que associa o ritmo trip hop a uma camada de sintetizadores, que aparecem com sutileza e sensibilidade. A guitarra completa os espaços entre a eletrônica e os instrumentos de sopro.

O ritmo é acelerado em “Ripped Nylon”: rhythm ´n´ blues e soul abrem espaço para toda a banda, com destaque para a pegada firme e repleta de suingue do baterista enquanto os teclados injetam uma boa dose de distorção.

“Racine” e “Chanson Parts 1 & 2” também são uma influência direta da parceria de Miller e Sting, e o melhor exemplo está em “Shape of My Heart”, do já mencionado Ten Summoner´s Tales. Representam o lado mais intimista ou new age do álbum.

Na direção oposta, “Sharp Object” é totalmente experimental, Miller faz sua guitarra soar próxima ao estilo de Allan Holdsworth e os teclados brincam com melodias e timbres inusitados.

E a faixa-título, que encerra o CD, começa com uma incursão acústica ao violão e parte para um belo solo de guitarra. O ritmo repleto de latinidade completa o panorama musical.

São 47 minutos de música, o tempo exato para Dominic Miller expressar suas ideias sonoras. November não é uma fonte de exageros virtuosísticos ou solos insanos. Mas se a intenção do ouvinte é buscar boa música e sair do convencional, pode apostar suas fichas no CD.

Leia também:

Hiromi Uehara – Beyond Standard

John McLaughlin – Industrial Zen

Leave a Reply