D´Alegria: baixos e guitarras aliam o artesanal e o tecnológico


Luthier é um termo que surgiu na França, a partir da palavra “luth”, que significa instrumento de corda. Com o passar do tempo, tornou-se o nome do especialista em fabricar instrumentos de forma artesanal.

Porém, hoje o termo vai muito além: trata-se do profissional que projeta e fabrica instrumentos de extrema qualidade, seguindo o mesmo sistema artesanal, mas direcionando seu trabalho para a qualidade. Trata-se de um produto exclusivo, que pode ser feito sob medida para o músico, de acordo com as suas necessidades. O Luthier é, acima de tudo, um detalhista e um perfeccionista. Sua arte equivale ao músico que sobe ao palco para dar o melhor de si em sua performance.

A D´Alegria é uma empresa fundada no Rio de Janeiro por Daniel Alegria e Rodrigo Werneck, que tem como meta fabricar baixos e guitarras com o padrão artesanal de qualidade aliado a uma tecnologia de ponta. Nada melhor do que conhecer o trabalho destes profissionais, em entrevista concedida por Rodrigo Werneck.

Musictime: Como surgiu a idéia de se tornar Luthier? Qual o motivo? Em que ano foi o início?

Rodrigo Werneck: Em 2002, tanto eu quanto meu sócio na D’Alegria, Daniel Alegria, estávamos um tanto quanto desiludidos com o mercado brasileiro de telecomunicações, de onde somos ambos oriundos. O Daniel já tinha uma experiência de 15 anos na construção, reparos e serviços em instrumentos musicais, além de tocar baixo, guitarra e violão (de forma amadora). Eu tinha vários contatos no meio musical aqui no Brasil e no exterior, por conta do meu envolvimento em produções de shows e com a revista Musical Box, da qual eu era co-editor. Juntando essas experiências prévias, resolvemos iniciar a produção de baixos customizados artesanais, e em janeiro de 2003 nasceu a D’Alegria.

A empresa começou a produção de baixos, e mais recentemente de guitarras. Como você sentiu esta abertura de mercado?

Sim, começamos com a produção de baixos apenas. O primeiro modelo lançado foi o Dart, depois o Defender, o Dragster, o Discovery (baixo vertical), e finalmente a guitarra Dimension, já em 2006. Recentemente, lançamos mais um modelo de baixo, o Dragon. Inicialmente, nos restringimos aos baixos por ser uma fatia de mercado menos “congestionada”, em comparação à das guitarras, por exemplo. Com o tempo, entretanto, resolvemos fazer um teste lançando um modelo de guitarra, teste esse que acabou sendo bastante positivo. Durante os primeiro anos, vários guitarristas nos cobravam uma linha de guitarras. As técnicas de construção são muito similares, afinal de contas. Embora haja muito mais concorrência no mercado das guitarras, há também um público consumidor muito maior.

Hoje, existe uma grande discussão a respeito da extração das madeiras nobres das florestas. Com a D´Alegria trata deste assunto?

Algumas das premissas que adotamos na escolha das madeiras para os nossos instrumentos são: o uso de espécies exclusivamente brasileiras (não usamos madeiras como Ash, Alder, Ébano, Maple, etc.), e especificamente as não ameaçadas de extinção (não usamos Jacarandá, Mogno, entre outras, a não ser eventualmente uma ou outra peça oriunda de demolição). Além disso, buscamos fornecedores certificados, de fontes que fazem a extração seguindo normas e preocupações ambientais, replantio, etc. O Brasil é um dos países, possivelmente *o* país, com uma das maiores reservas e com o maior número de espécies de árvores à nossa disposição. Logo, temos como testar e passar a utilizar ótimas espécies alternativas às tradicionais, com resultados iguais ou superiores. Hoje em dia, utilizamos bastante o Freijó, o Ipê, o Roxinho, a Garapa, o Tauari, a Cerejeira, o Marupá, o Cumaru, entre outras espécies.

Quais as etapas básicas para a produção de um instrumento?

Antes da produção em si, definimos com o Rodrigo Werneckcliente a configuração completa do instrumento, de forma a podermos optar pelas madeiras mais adequadas. Isso influi tanto na parte estética quanto nas características sonoras, e no peso do instrumento. Em seguida, selecionamos as peças de madeira a serem usadas, cortamos braço, corpo e escala seguindo os moldes do modelo escolhido, e se for o caso (opção estética) colamos folhas de revestimento frontal no corpo e na mão. Procedemos com o arredondamento das bordas, definição do contorno do braço, colagem da escala após instalação do tensor, instalação dos trastes e marcadores de escala, e finalmente lixações de todas as peças para receber o acabamento. Todas as etapas são feitas de forma totalmente manual, ou utilizando instrumentos e máquinas manipuladas manualmente. Não usamos máquinas CNC (equipamentos controlados por computadores) em processo algum.

O próximo passo é o acabamento das peças. Corpo e braço recebem acabamento em poliuretano (PU), brilhante ou acetinado (semi-fosco), e se for o caso são tingidos, ou permanecem com o visual natural das madeiras. No caso do acabamento brilhante, existe a etapa final de polimento. A seguir, procedemos com a montagem do instrumento, nivelamento dos trastes, forração da cavidade elétrica com cobre (para evitar a captação de ruídos indesejados no futuro), instalação de captadores e parte elétrica, instalação do hardware (ponte, tarraxas, knobs, etc.), colocação das cordas e regulagem final. O processo como um todo leva cerca de 3 meses.

Apesar do trabalho artesanal que envolve os instrumentos, a D´Alegria também utiliza uma tecnologia de ponta no desenvolvimento do seção eletrônica. Pode nos explicar a respeito?

Exato. Como tanto meu sócio quanto eu somos engenheiros eletrônicos formados pela PUC/RJ, desenvolvemos o nosso próprio pré-amplificador de 3 bandas (com controles de graves, médios e agudos), seguindo as melhores técnicas para se obter uma alta performance, além da utilização de componentes eletrônicos de primeira categoria.

Inicialmente esse pré era fabricado manualmente em nosso workshop, um a um, mas depois de um tempo tornou-se necessária a produção dele em escala industrial, sendo que o pré passou a ser fornecido a outras marcas ou mesmo individualmente a clientes, para instalação em instrumentos não necessariamente fabricados pela D’Alegria. Nasceu aí a ToneChaser, que comercializa não somente este pré (o TC-3B), como também captadores enrolados à mão para baixo e guitarra, “single coil” e “humbucking” (“doube coil”).

Este desenvolvimento é um dos grandes atrativos da empresa? Trata-se de um diferencial?

Durante muito tempo foi de fato um diferencial, e muita gente adquiriu os nossos instrumentos por buscar essa combinação de madeiras alternativas, hardware de primeira qualidade (Gotoh, Hipshot, Grover, etc., cordas Elixir), e parte elétrica exclusiva. Além do pré, desenvolvemos também o “Vintagizer”, uma chave rotativa de 6 posições que fornece diferentes sonoridades ao instrumento, indo de um som mais brilhante e moderno até algo mais “abafado”, mais próximo aos instrumentos “vintage”, daí o nome do controle. O “Vintagizer” é ainda hoje uma facilidade opcional totalmente exclusiva da D’Alegria, pois não é fornecido à parte.

Entre os endorsers da empresa está o veterano músico Trevor Bolder, da clássica banda Uriah Heep. Como você obteve este contato?

Tenho contato com o pessoal do Uriah Heep desde 1995, e já me envolvi em diversas atividades com eles, desde o próprio website da banda até a organização de shows, tanto no Brasil quanto na Inglaterra. Quando começamos a D’Alegria em 2003, entrei em contato com o Trevor, que topou testar um baixo pois estava sem endorsee naquele momento. Havia testado vários baixos de outros fabricantes, como a Warwick por exemplo, mas não havia se adaptado e continuava usando seu velho baixo Fender Precision 1973. Ao testar um modelo Defender JB nosso, gostou bastante e já fornecemos 2 a ele, ambos de 4 cordas, sendo o segundo um modelo signature, o Defender TB – Trevor Bolder model. Coincidentemente, hoje mesmo eu recebi um e-mail do Trevor me solicitando o fornecimento de um baixo de 5 cordas, que ele irá precisar para a turnê de divulgação do novo disco do Heep, chamado “Wake The Sleeper”!

Outros endorsers surgem por intermédio dos nossos distribuidores lá fora, como é o caso do baixista norte-americano Trae Pierce, da lendária banda de soul/gospel Blind Boys of Alabama. Aqui no Brasil temos também nomes de respeito no nosso time, como André Neiva (Jorge Vercilo, Cama de Gato), Zuzo Moussawer (artista solo, atualmente nos EUA), Bruno Migliari (bandas de Frejat e Ana Carolina) e Jorge Pescara (banda da Ithamara Koorax).

Recentemente o baixo Defender JB Deluxe foi analisado pela revista norte-americana Bass Player. O que você acha desta repercussão? A idéia da empresa é colocar seus produtos no mercado exterior.

Na verdade, cada vez mais temos aumentado a distribuição dos nossos instrumentos no exterior. No momento, vendemos mais para o exterior do que no Brasil. Temos distribuidores já há alguns anos nos EUA, Canadá, Reino Unido, França e Japão. Fechamos no fim do ano passado com um novo distribuidor na Suécia, que vai atuar em toda a Escandinávia e também Finlândia. E estamos agora negociando com um distribuidor na Alemanha, que também engloba Áustria e Suíça. O mercado externo é uma prioridade para nós, sem descuidarmos (ou desprezarmos) o mercado brasileiro.

Temos participado de feiras no exterior, junto de nossos distribuidores, como as edições da NAMM (EUA), London Guitar Show e Music Live (ambas na Inglaterra), e a Musical Instruments Fair em Yokohama, Japão. No ano que vem nossos instrumentos deverão estar presentes na Musikmesse, em Frankfurt, Alemanha. E, aqui no Brasil, temos participado todos os anos da Expomusic de São Paulo.

Daniel AlegriaAlém da análise realizada recentemente pela Bass Player (EUA), já saíram mais matérias nas revistas Bass Guitar Magazine, Guitarist, Guitar & Bass (essas três da Inglaterra) e Bass Magazine (Japão), e em sites como Ultimate-Guitar.com (EUA) e Audiofanzine.com (França). Fora obviamente revistas brasileiras como Cover Baixo, Cover Guitarra, Backstage, Cenário Musical, entre outras, bem como sites como Território da Música, etc.

Quantos baixos e guitarras a empresa produz por mês em média?

Temos uma produção em média de 5 a 10 instrumentos por mês. Isso varia um pouco em função da época do ano. Por exemplo, na época das feiras de verão e outono no mercado do hemisfério norte, a produção tende a aumentar. Um detalhe interessante é que o número de guitarras produzidas vem alcançando a quantidade de baixos. Com os novos contratos de distribuição, entretanto, prevemos um aumento da demanda para os próximos meses, em especial no exterior.

Uma das vantagens que a D´Alegria oferece aos seus clientes é a escolha dos componentes que estarão presentes nos instrumentos, desde as madeiras do corpo e do braço até a seção eletrônica. Isso torna o produto mais próximo do gosto de cliente, não é verdade?

Sim, essa é a premissa básica dos instrumentos “custom made”. Nossos clientes realmente valorizam a possibilidade de poder escolher todos os detalhes dos seus instrumentos, dentre as alternativas que oferecemos. São várias escolhas a serem feitas, o modelo, as madeiras, cor do instrumento, parte elétrica, hardware, entre outros detalhes. O fato dos nossos instrumentos serem todos feitos à mão, um a um, de forma personalizada, é um grande atrativo para vários músicos, profissionais ou amadores.

O que você acha do trabalho de um luthier no Brasil? Quais as dificuldades encontradas?

É um mercado difícil, disputado, mas com dois enfoques diferentes. Há os luthiers, digamos assim, “low profile”, com atuação mais localizada, que baseiam sua divulgação no “boca a boca”. Por um certo ângulo, é uma atuação menos profissional (não me refiro à qualidade da construção em si). Há, por outro lado, os luthiers (ou as empresas de luthieria) com uma atuação mais profissional, voltada a mercados maiores, com um esquema de marketing mais estruturado, distribuição esquematizada, etc. A D’Alegria se insere neste segundo grupo, que não possui muitos integrantes no Brasil.

As maiores dificuldades, aqui no Brasil, estão em demonstrar como se diferem os instrumentos customizados, “handmade”, dos instrumentos feitos em série pelas grandes marcas. O brasileiro tem também a tendência de supervalorizar produtos estrangeiros em detrimento do que é feito no nosso país. Isso está mudando, mas é um processo lento. Já no exterior, há uma grande valorização de tudo o que é feito à mão, e há uma grande valorização também das madeiras tropicais que utilizamos.

Como você vê o futuro da profissão? E a competitividade em relação às grandes marcas?

Creio que sempre haverá espaço para instrumentos feitos à mão, de forma customizada. O que ocorre hoje em dia é que os instrumentos fabricados em série estão cada vez melhores, diminuindo a distância (em termos de qualidade) para os instrumentos artesanais. A diferença de preço, porém, está cada vez maior. A ascensão dos fabricantes asiáticos explica esse fenômeno mercadológico, que ocorre em várias outras esferas de produtos e serviços, como todos sabemos. Isso torna o cenário mais árduo, mas esse é um fenômeno que atinge mais fortemente as grandes marcas ocidentais, como Gibson, Fender e outras, que estão tendo que se juntar a fabricantes orientais para serem concorrentes deles próprios, com linhas de instrumentos mais baratas. “If you can’t beat them, join them”.

Já o mercado “custom made” funciona de forma diferente, tem toda a questão de exclusividade, do fato de cada instrumento ter suas características próprias. Ganha-se na margem de um serviço altamente especializado, e não na quantidade produzida. É lógico que, conforme as quantidades produzidas aumentam, aparecem várias questões inerentes ao processo. Até onde crescer, sem comprometer a qualidade? Vale a pena deixar a produção artesanal para trás, e partir para algo mais automatizado? Cada fabricante lida com esses dilemas de forma diferente, e com resultados que variam de acordo com a competência em lidar com cada cenário que se apresente. Num mercado que alia criação, arte, com competição, profissionalização, há um grande risco envolvido em cada tomada de decisão.

Vídeo: Trae Pierce e o baixo Defender TP - D´Alegria:

Contato: D´Alegria Custom Made

Entrevista: Ciro Hiruma

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