Daniel Piquê e a arte da guitarra

Daniel Piquê (Foto: Paula Mordente)

Daniel Piquê (Foto: Paula Mordente)

ENTREVISTA

Ciro Hiruma

Talento, dedicação para vencer e criatividade. Assim é a carreira de Daniel Piquê, o jovem guitarrista que conseguiu uma rara proeza: a adesão de músicos como Mike Mangini, Billy Sheehan e Felipe Andreoli em seus CDs. Dividir uma turnê de workshops ao lado de Timo Tolkki, do Stratovarius. E não para por aí: o músico obteve o patrocínio de empresas de renome internacional.  Sua atuação se estende a produção fonográfica e muito mais.

Gostaria que você contasse sobre os seus primeiros contatos com a música, o interesse em ser guitarrista.

Me lembro de pequeno sempre revirando os discos de meu pai e tentando reproduzir ou imitar os sons. Meu pai era médico mas sempre envolvido com música, chegou a dar aulas de violão em conservatórios etc.; minha mãe sempre tocou piano, então isso tudo me fez estar em contato com a música desde sempre. Não lembro de ter pedido para meus pais me matricularem em escolas de música, mas me recordo que sempre estava lá! Comecei com piano, depois violão e guitarra, mas sempre buscando coisas novas e que julgava legal, como bateria, contrabaixo, etc. Acho que esta minha vivência e busca de sons da infância me ajudaria muito na formação de produtor e na carreira de guitarrista para expor minhas ideias das melhores formas possíveis.

A guitarra em específico, me lembro de derrubar um disco com uma capa diferente: um cabeludo com uma Strato amarela esbranquiçada, se debatendo com um dragão, no caso Yngwie Malmsteen. Me recordo de ter colocado o disco para tocar e imediatamente decidi que queria tocar aquilo ali, de qualquer forma. Acabava sendo um estímulo de estudo de técnicas, enfim… Acredito que esta obsessão pelo instrumento começou naquele dia.

Aos 19 anos você já tinha graduação em produção musical. Realizou um curso para se tornar profissional nesta área? Conte as etapas que teve de percorrer para chegar a ser produtor.

Sim, entrei com 17 anos na universidade cursando Produção Fonográfica até me formar dois anos depois.

Desde pequeno eu já gravava demos e shows de amigos, fazia todas as artes dos “supostos” CDs, DVDs., enfim, eu gostava e gosto do processo todo, já faz bastante tempo. Como comecei muito cedo a pesquisar sobre o assunto, acabei amadurecendo precocemente, o que hoje me dá uma bagagem com credibilidade e confiança junto aos grandes profissionais do mundo. Agradeço aos meus pais por me darem esta oportunidade.

Quais as influências que ajudaram a definir seu estilo musical?

Puxa, são tantas! Eu sempre gostei de músicas instrumentais sejam elas com foco na guitarra ou não… Como bom mineiro que sou, escutava Milton e Cia também. Mas sempre fui bem aberto e desprovido de preconceitos, ficava bem ligado no que rolava nas rádios e televisão, música pop, enfim, até hoje escuto as novidades buscando sempre as coisas boas de cada artista. Acredito que se polir, sempre fica bonito.

Daniel Piquê e Billy Sheehan (Foto: Divulgação)

Daniel Piquê e Billy Sheehan (Foto: Divulgação)

Todos os seus trabalhos até hoje foram self financed, quais as dificuldades para se obter espaço no mercado musical?

Hoje em dia com toda esta acessibilidade das pessoas aos trabalhos, que 20 anos atrás não tinha, acredito que se você tiver um foco, saber onde está querendo chegar e ficar “antenado” com as mudanças do mundo você vai descobrir maneiras diferentes para conquistar seu espaço e sonhos. A dificuldade, acredito eu, é sempre acompanhar o tempo, pois isso requer inovação constante. E a tendência é ter mais mudanças e com frequência maior.

Gostaria que você comentasse sobre os dois DVDs que lançou, Guitarra e The Crossword? São making off de seu trabalho no estúdio, didáticos ou mostram mais seu trabalho on the road?

Chamo estes trabalhos de DVD porque um dia já tiveram seu formato físico, mesmo que isso signifique um piloto de design de capa. Mas nunca foram vendidos nem prensados, o The Crossword, por exemplo, está disponível gratuitamente no Vimeo.

O filme Guitarra foi um projeto de faculdade, um documentário sobre a história da guitarra, como surgiu, etc. Na época foi bacana que tive depoimento de pessoas influentes no meio da luthieria e da guitarra.

O filme The Crossword é um documentário baseado na produção e conceito do meu primeiro CD autoral intitulado Boo! Nele há depoimentos de artistas que participaram do projeto como o Billy Sheehan, mas também amigos artistas que escutaram o produto final e acharam bacana relatar aquilo através de vídeo também.

Seu EP One tem a participação de músicos como Felipe Andreoli (Angra), Fábio Laguna  (Hangar, tocou vários anos com o Angra) e Marcelo Moreira (baterista do Burning in Hell e Almah). Conte a história desse trabalho.

O projeto One, na verdade é um single de internet que surgiu da necessidade de ter algo registrado para participar de coletâneas e começar a expor o meu propósito enquanto músico/compositor. Foi bacana chamar amigos para registrar aquilo comigo, que mais tarde me dariam incentivo para que tudo aquilo virasse uma carreira. Cada artista tem sua história de começo de carreira, a minha na música instrumental veio deste single ONE. Fico feliz em saber que este projeto hoje faz parte da vida de várias pessoas como influência musical ou referência no estilo.

Foto: MRossi - Artwork: Gustavo Sazes

Foram meses de telefonemas e e-mails para empresários até fecharmos todos os detalhes. Neste espaço de tempo eles conheceram meu trabalho/ potencial, e a partir daí tudo ficou mais fácil, no final me disseram que tudo era inacreditável e que estavam muito felizes de participar do projeto (imagina como me senti?! rs). Ainda mais que as gravações iriam ser no Brasil… Seriam umas férias pra eles pois ambos só haviam estado no Brasil com o Steve Vai em poucas outras apresentações, e em tempos muito corridos.

E a sua experiência ao lado de Timo Tolkki do Stratovarius?

Recebi um convite para dividir uma tour de workshops com ele pela América Latina. Foi um mês viajando com ele no final de 2009.

Seu trabalho chamou a atenção de várias empresas e hoje você é endorsee de marcas consagradas. Foi difícil obter esses patrocínios?

Cada parceria teve sua história, mas na maioria, eu estava tocando e alguém da empresa viu, gostou, e me ligou ou mandou e-mail oferecendo a parceria. A última foi com as guitarras Gibson. Eu estava tocando na Musikmesse em Frankfurt (Alemanha) e aí tudo rolou. Fico feliz e honrado de saber que empresas de alto padrão de qualidade, credibilidade, gostam e apóiam meus projetos.

Como você vê a cena musical atual? O evento das novas tecnologias (MP3, IPod, redes sociais) veio a beneficiar ou dificultar a profissão do músico?

Acredito que o rumo do cenário musical para alguns gêneros mudou para pior e outros para melhor, tanto para rentabilidade quanto espaço na mídia, enfim, cada caso é um caso.

Acredito que toda mudança é um pouco incômoda para quem é muito alienado. Eu acredito que não dá para ficar comparando muito o passado com o presente porque são muito diferentes em vários aspectos. Ambos tiveram os seus prós e contras, então o profissional da música antenado sabe tirar os benefícios sempre. No meu caso, adoro uma novidade e acredito que hoje uma das maiores potências de mídia para o artista é a internet e seus derivados.

É difícil ser um músico que se dedica a área instrumental no Brasil?

Se fosse fácil teríamos muito mais artistas profissionais no meio, mas acredito que os que estão na ativa são de muita qualidade por superarem obstáculos que um gringo raramente enfrentaria, criando um amadurecimento e qualidade extra aos brasileiros. Está melhorando, oportunidades não faltam…

Qual o seu próximo passo? Pretende seguir a mesma linha musical ou desenvolver projetos diferentes? Quem sabe um trabalho com vocalista, por exemplo?

O meu foco atual é o término do meu estúdio em Minas Gerais. Não tenho planos concretos ainda, mas pode rolar de tudo. Uma coisa eu garanto: – vai ter a minha cara, como sempre - rs. Acabei de lançar uma versão limitada do CD Boo! para download grátis em meu site com playalongs, novo artwork, enfim, muita coisa nova já está rolando. Sempre que tenho alguma novidade ou curiosidade, posto no meu Twitter. É só seguir e aproveitar.

Além da guitarra, você se dedica a outras atividades, como fotografia, design. Comente a respeito!

Pois é, como comentei no começo da entrevista sempre tive este espírito curioso. Hoje tenho um estúdio de fotografia onde, nas horas vagas brinco de fotógrafo e já faz anos que trabalho como diretor de vídeo tendo como último trabalho publicado o projeto  para Aquiles Priester e banda (Hangar), registrando os bastidores de um mês de Tour. Eu realmente gosto de arte, então, procuro desenvolver os dons que me foram dados da melhor forma possível, caso contrário, não faz sentido, não é?

Gostaria de agradecer pelo convite da entrevista, a você leitor, e a todos que acompanham minha carreira comparecendo nos workshops, mandando mensagem na net, enfim. Aproveitar e agradecer também as marcas que me apoiam: Gibson, Ernie Ball, Monster Cable, Morpheus, Morley, TC Eltronic, Takamine e Capcase. Fica novamente o meu convite para que visitem os meus sites oficiais. Um grande abraço a todos!

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