Queen – The Game

CLÁSSICOS

Ciro Hiruma

A pergunta que é: por que não escolher um clássico como A Night at the Opera, obra essencial do Queen?

Sim, este é sem dúvida o álbum mais comentado do grupo nas listas “os melhores álbuns de todos os tempos”. Afinal é uma obra-prima, perfeita do começo ao fim. Mas que tal avançar um pouco mais na história da banda?

Logo após o lançamento da Opera, em 1975, foi a vez de A Day at the Races, que segue de perto o estilo e a qualidade do antecessor. A partir daí, a discografia do grupo muda o direcionamento sonoro. News of the World é um trabalho de transição que mantém parte do som antigo e abre espaço para um rock mais direto, menos complexo. Lotado de clássicos como “We Will Rock You”, “We are the Champions”, “Spread Your Wings”, “Sheer Heart Attack”, mas com impacto menor do que as obras anteriores, apesar do imenso sucesso comercial.

Jazz consolida a mudança definitiva do Queen. Sem perder a força hard rock de sua música, abre espaço para uma tendência mais acessível, uma sonoridade menos grandiloquente. Até o funk aparece em “Fun It”, composição do baterista Roger Taylor, fato inédito na banda.

É claro, críticas surgiram e colocaram em dúvida os novos rumos da banda. Mas as qualidades básicas continuavam intactas: o ecletismo musical, um extremo cuidado nos vocais e, é claro, o talento dos músicos para tocar e compor. O Queen sempre foi uma banda singular dentro do rock.

E assim chegamos a The Game. Como novidade, foi o primeiro trabalho da banda a incorporar um sintetizador, o Oberheim OB-X. É possível ouvir sua presença desde a faixa de abertura, “Play the Game”, que começa apenas com o vocal e o piano de Freddie Mercury. A sensação é de ouvir de uma simples balada que cresce de forma gradativa até mostrar toda a sua intensidade, um épico típico do Queen. A inigualável e personalíssima guitarra de Brian May faz a diferença.

“Dragon Attack” é uma música mais complexa do álbum. A bateria de Roger Taylor aplica um suingue extremamente criativo e acompanha o baixo marcante de John Deacon, que rege as ações. Quando a guitarra entra em cena, coloca em evidência todo o potencial da música. Agressividade, dinâmica percussiva, brevíssimo solo de bateria, tudo funciona na medida certa.

A aspiração funk que havia aparecido de leve em “Fun It”, do Jazz, surge com todo a força em “Another One Bites the Dust”. Na época, não foram poucos os que torceram o nariz e comentaram: “até eles aderiram a este gênero musical?”. Afinal, era a fase em que a banda Chic, pilotada pelo baixo de Bernard Edwards, fazia o maior sucesso. Hoje é um clássico, o single mais bem sucedido da história do Queen, superando a marca de sete milhões de exemplares vendidos. A linha melódica criada por Deacon é só aparentemente simples, enquanto Freddie Mercury arrasa nos vocais. É como um tiro direto no alvo. Nem mais, nem menos.

“Need Your Loving Tonight” é o momento mais pop do álbum, muito agradável, seu interesse reside especialmente na guitarra de May e na interpretação espontânea de Mercury. Traz a herança de “Don´t Stop Me Now” e “If You Can´t Beat Them” de Jazz, em uma escala menor de qualidade.

Uma homenagem explícita ao rock dos anos 1950, em grande estilo. Esta é a deixa para “Crazy Little Thing Called Love”, primeiro single do álbum. Freddie Mercury, o compositor, segue a linha vocal de Elvis Presley e relembra o rockabilly, em versão modernizada. Alcançou o topo da parada americana e até hoje é um dos pontos altos do show do Queen (+ Paul Rodgers).

Se fosse a era do vinil, seria a hora de colocar o lado dois. “Rock It (Prime Jive)” abre com vocal de Mercury, mas é Roger Taylor quem assume o controle. É um hard rock para ninguém colocar defeito, um hino em homenagem ao gênero musical, assim como outra composição do baterista, “I´m in Love with my Car”, que era uma idolatria assumida aos carros, à velocidade. Nem é preciso dizer que Taylor detona as baquetas, mas a união do grupo é simplesmente fantástica.

Em “Don´t Try Suicide”, Mercury brinca com os rudimentos do rock & roll. Traz um pouco do swing jazz dos anos 1940, rhythm ´n´ blues, o boogie woogie. A levada tem um leve toque de “Fever”, composição de Otis Blackwell, sucesso de Elvis Presley.

Toda vez que Brian May coloca seus dotes vocais em favor do Queen, pode-se esperar uma música especial. Em “Sail Away Sweet Sister (To The Sister I Never Had)” ele se supera. Consegue se expressar com incrível sensibilidade, talvez só igualada em “Some Day One Day”, do Queen II, em 1974. Um refrão marcante e momentos que se alternam, ora melancólico, ora repleto de energia, são contrastes que fazem a canção ser especial.

“Coming Soon” é uma composição de Taylor com vocal de Mercury. Segue a ideia que começou em Jazz, rock direto, sem floreios, levada de bateria básica, menos de três minutos. Certamente a música mais convencional do CD, mas cai muito bem como transição para o encerramento.

“Save Me” não é apenas uma grande música do Queen, mas uma parte da história do rock. A letra é dramática, sem cair na pieguice. Trata da perda, um amor que continua vivo mesmo tenha sido um equívoco: “Os anos de cuidado e de lealdade/ Não eram senão uma farsa ao que parece/ Eu amo você até morrer/ Salve-me/ Eu não posso enfrentar esta vida sozinho”.

O videoclipe, bem produzido, mostra um final quase trágico, em desenho animado, onde uma mulher se atira das alturas, mas se transforma em uma pomba branca. Como se fosse uma reconciliação consigo mesma. Paz de espírito. A banda traduz toda a intensidade da letra/ imagem destilando leveza e tristeza, que explodem em um final bombástico, eletrizante.

O álbum foi produzido pelo Queen. Reinhold Mack foi o engenheiro de som e co-produtor, o estúdio utilizado foi o Musicland, em Munique, Alemanha. Todas as faixas foram gravadas entre fevereiro a março de 1980, exceto “Crazy Little Thing Called Love”, “Sail Away Sweet Sister”, Coming Soon” e “Save Me” (entre junho e julho de 1979).

Ficou em primeiro lugar nas paradas de vários países como Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Argentina.

A escolha de The Game como clássico se deve a história de uma banda que mudou seu estilo musical, sua percepção de um novo tempo. Adotou uma nova postura mantendo a qualidade de seu trabalho. É uma banda eclética, meticulosa, consciente do que faz, tendência esta que prosseguiu no trilha sonora do filme Flash Gordon e na passagem antológica da turnê pelo Brasil em 1981. Em seguida, o álbum Hot Space deixaria claro que o padrão sonoro já não era o mesmo.

Assista o clipe de “Save Me”:

Link:

Queen – Site Oficial

2 Responses to “Queen – The Game”

  1. Muito bom o artigo, você tem toda razão. The Game é um dos meus discos favoritos do Queen!

  2. Hilario Jewkes on maio 11th, 2011 at 22:00

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