Black Sabbath – Mob Rules

CLÁSSICOSMob Rules Capa

Ciro Hiruma

Sempre que um músico famoso, dono de um notável carisma, resolve deixar uma banda, é certo que uma grande polêmica vai acontecer. Afinal, quem será seu substituto? Existe alguém capaz de ocupar seu lugar?

Mick Jagger deixar os Stones? Bono sair do U2? James Hetfield abandonar o Metallica?

Um exemplo atual é o retorno do Queen com o cantor Paul Rodgers no lugar de Freddie Mercury. Eu comentei o assunto no review do CD The Cosmos Rocks.   

O Black Sabbath foi um pioneiro na fundação do estilo hard rock, um exemplo para várias gerações de músicos. Os temas das composições evocavam o terror, medo e suspense para expressar um estilo de que fez escola dentro do movimento. As ilustrações das capas dos álbuns e os cenários dos shows seguiam o mesmo conceito.

Em 1979, o vocalista Ozzy Osbourne anunciou sua saída por divergências pessoais com membros do grupo. Quem seria capaz de substituir um cantor com uma identidade tão pessoal, a própria representação da banda?

A escolha não poderia ser mais acertada. Ronnie James Dio, um veterano na estrada do rock desde os anos 50, acabava de passar uma grande fase no Rainbow, banda de Ritchie Blackmore, ex-Deep Purple. Foi assim que o cantor se reuniu aos demais membros da banda: Tony Iommi (guitarra), Geezer Butler (baixo) e Bill Ward (bateria)

A entrada do novo vocalista resultou em um ótimo álbum, Heaven and Hell (1980), mas a tranquilidade durou pouco tempo: Ward anunciou que estava de partida. Seu substituto, Vincent “Vinny” Appice (na época seu apelido era “Vinnie”), ganhou projeção tocando na banda Derringer e foi considerado o músico ideal para a bateria.

Foi com esta formação que o álbum Mob Rules chegou às lojas em 1981, produzido por Martin Birch, um dos profissionais mais requisitados na cena musical atuando ao lado de bandas como Fleetwood Mac, Deep Purple, Whitesnake, Rainbow e Blue Öyster Cult. Seu trabalho com o Black Sabbath começou em Heaven and Hell e o resultado foi tão positivo que a parceria foi mantida. O mesmo aconteceu com Geoff Nichols, que participou dos dois trabalhos como tecladista convidado.

O momento não poderia ser melhor: Tony Iommi reuniu seu arsenal de riffs habitual e aparece com uma incrível técnica nos solos, como não se via na “era Osbourne”. Pura evolução e maturidade de um músico consagrado que não parou no tempo.

“Turn up the Night” é a faixa de abertura que concentra todo o potencial dos músicos em uma investida explosiva. Appice mostra porque foi chamado para o grupo: uma incrível dinâmica rítmica, velocidade aliada à técnica, suporte ideal para a autêntica muralha sonora formada pela associação da guitarra e baixo. Basta acrescentar Ronnie James Dio em sua melhor forma para a música ficar perfeita.

“Voodoo” pode ser considerada uma música típica do Black Sabbath, a começar pelo título. O andamento mais lento privilegia o peso dos riffs de guitarra, exatamente como acontecia nos anos 70.

Uma grande surpresa é “The Sign of the Southern Cross”. A singela abertura ao violão e o vocal de Dio, suave com trechos em falsete, logo cede lugar para um tema absolutamente sombrio. Iommi se encarrega da criação dos climas e os teclados de Nichols ajudam a compor um cenário de horror digno de um clássico da banda. A letra recorda uma profecia apocalíptica: “Há um arco-íris que vai brilhar quando o verão acabar/ Se um eco não responder a um som penetrante/ Então a besta estará livre para vagar/ É o sinal do Cruzeiro do Sul”

A vinheta “E5150″ explora ao máximo os teclados a fim de gerar o clima de tensão. Para conhecer o verdadeiro significado do título, basta trocar os números por algarismos romanos. “5″ é a letra “V”. “1″ é representado por “I”. E “50″ é “L”. Assim, o nome da música é “Evil”.

“The Mob Rules” é um clássico inesquecível, riffs de guitarra comandam a base da composição e o poder de ataque da bateria produz um “caos sob controle”. Um hino do rock pesado composto por uma banda em estado absoluto de criatividade. 

A letra de “Country Girl” leva a crer que a tal garota do título é uma feiticeira: “Seus olhos eram uma chama sem fim, dama não abençoada/ O desejo mostrou um poder especial a arrebatar sua alma para longe/ Seu sorriso era como uma canção de inverno, o encerramento de um sabá”. Quem se lembrar do álbum de estréia do grupo, Black Sabbath (1970), vai descobrir em sua capa a obscura figura feminina em um cenário campestre soturno. Quem sabe uma referência ao passado da banda?

Black Sabbath - Dio Years“Slipping Away” é construída sobre as variações rítmicas de Appice. O duelo sonoro entre Iommi e Butler é o ponto alto da música.

A introdução de “Falling off the Edge of the World”, tranquila e melancólica, é apenas um recurso para surpreender o ouvinte. Na seqüência uma música demolidora segue de perto o estilo heavy metal dos anos 80. Mas a guitarra não deixa esquecer: é puro Black Sabbath.

Para terminar em um ritmo mais lento, “Over and Over” coloca mais uma vez a guitarra de Iommi como personagem central, uma interpretação com influências do rhythm ´n´ blues. Seu solo é extremamente criativo. Ronnie James Dio não perde a chance de colocar toda a potencia e sentimento em sua voz.

The Devil You Know

A extensa turnê que se seguiu ao lançamento de Mob Rules resultou no álbum ao vivo Live Evil. Este trabalho foi o motivo das desavenças que aconteceram entre Dio e Iommi durante as sessões de mixagem. O clima tornou-se tão hostil que o vocalista decidiu sair do grupo.  E mais, levou Vinny Appice com ele a fim de fundar sua própria banda, chamada simplesmente Dio.

Em 1992, Dio, Iommi, Butler e Appice voltaram a se reunir brevemente para a gravação e turnê do CD Dehumanizer. E a partir de 2006, a banda retornou com o nome Heaven and Hell para evitar conflitos e eventuais comparações com a formação original do Black Sabbath com Ozzy Osbourne (que está firme em sua carreira solo).

A mudança do nome pouco interessa: o CD Live From Radio City Music Hall recebeu o disco de ouro e mostra que os músicos continuam em grande forma. Um álbum de estúdio está programado para 2009 com o provável título The Devil You Know.

Muitos fãs do Black Sabbath vão apostar em outros álbuns como clássicos: Paranoid, Sabbath Bloody Sabbath, Sabotage, Heaven and Hell. Não resta dúvida de que cada uma dessas obras tem um lugar especial na história do rock.  A escolha de Mob Rules tem motivos especiais. Além da extraordinária qualidade musical, é uma história de superação, de reestruturação da banda com grande sucesso.

Links:

Black Sabbath

Heaven and Hell

Ronnie James Dio

Tony Iommi

Geezer Butler

Vinny Appice

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